Algo Realmente Encantador

Bem, de repente, sem que a gente espere, surgem lembranças de momentos longínquos que nos faz ter certos minutos de ócio, nos mergulhando nas imagens que em algum momento vivemos. Nos faz refletir o quanto realmente estamos velhos ou se velho torna-se uma palavra ruim, podemos substitui-la por experientes.

Mas sendo sincero, não acho que estar velho seja algo que signifique já estarmos preparando o paletó, muito ao contrário, justamente no momento que estou, acredito que tenho muito ainda o que viver, o que explorar e o que amar. Mas, claro, quanto mais vivemos, mais atenção necessitamos e eu justamente na vida que tenho, sinto certo medo de regras e um monte de sermões quanto à preocupação sobre minha vida.

Estou neste momento sim, de quando vem a mim, me questionando se fiz o meu destro ou, algo que jamais poderia imaginar estar tomando para hipertensão, remédios para controlar a pressão, logo vem aquela miserável fúria, justificando que não me sinto realmente da forma que me julgam estar, mas verdadeiramente estou já no meu meio século de vida.

Hoje, quando eu estava sendo banhado, tive a vontade de compartilhar aos profissionais que estavam cuidando de mim, uma gota de meu passado. Isso porque, no rádio que todos os dias deixo tocando, começou uma música ao toque de um piano.

Perguntei ao rapaz que me esfregava se um dia ele teria interesse em tocar algum instrumento e sua resposta foi que sim. Ele, com seus 20 anos, ainda com um longo caminhar à sua frente. Me vejo há quase 35 anos quando uma terapeuta ocupacional entrou em nosso quarto, tocando um instrumento de sopro chamado Escaleta.

Daquele ponto então, senti uma vontade imensa de ter um daqueles quando, meses depois, um médico me presentou com o tal instrumento. O fato é que eu não tinha fôlego suficiente para assoprá-lo e quando eu fazia, notas desafinadas e sem sentidos saíam em uma melodia feita com grande interesse.

Assim, tiveram a ideia de fixar um tudo de oxigênio no bocal do instrumento e, quando abriam bem de vagar o oxímetro, assim que eu pressionasse uma tecla, o som saia forte e contínuo.

Minha primeira música tocada por apenas ouvir era Asa Branca, de Luiz Gonzaga, e assim, todos ficavam curiosos como eu tinha tal dom. Porém, este era apenas o acorde que eu sempre tive em minha mente e, quando aquela terapeuta que meses atrás tocando aquele instrumento que eu também tive me viu tocar, ela imediatamente disse que eu deveria aprender música, e com ela tive minhas primeiras aulas de piano em uma Escaleta.

Os meses foram passando e sem que eu esperasse, ela não mais apareceu, e a partir daí, uma médica japonesa que infelizmente não recordo o nome, foi minha professora musical. Aprendi a ler partitura e ao invés de permanecer anos com a Asa Branca, minhas aulas era baseadas nos estudos de Choppin.

Mas, isso foi um longo passado,do qual hoje apenas vejo imagens borradas pelo tempo e na saudades do garoto que fui. Hoje me vem a tristeza das dificuldades do que tudo se tornou.

Bem, tenho um bom gosto musical. Muitas melodias que ouço me trazem grandes emoções espirituais, as quais ainda me fazem crer que apesar de nossas falhas, somos capazes de criar maravilhas.

Quando vejo bandas tocando seus instrumentos, sempre tenho interesse de ter aqueles sintetizadores, mas quando vem o desejo de algum dia poder ter um em minhas mãos, vem a ideia de que seria algo abandonado, pois, no momento, perdido em meu labirinto, não tenho ideia de qual caminho seguir, e assim, tudo se torna apenas um sonho.

Sou um eterno apaixonado por grandes trilhas sonoras, sendo estas poemas harmoniosos compostos com a alma, dedicadas a cenas marcantes de grandes filmes. Estes duram décadas em minha vida, com o passar do tempo, estas belas melodias se fazem presentes em meio às adversidades de minha vida.

Quando um exército se prepara para a batalha, logo vejo os tambores rufando, anunciando, assim, a marcha para a crueldade. Quando de repente a derrota se mostra presente, precisamos de algo que possa nos ofertar vida e calor e uma melodia que nos dê a chama da esperança, nos faz erguer diante da névoa densa, para que ergamos nossos escudos, e apontemos nossas espadas para o alto, com o bradar de vitória.

Bem, o que restou do pouco que conheci da música, foi apenas um amor forte e apaixonado que fazem desses filmes maravilhosos, algo realmente encantador.