Satisfação de Vida

É meus amigos, estou nesse exato momento respirando fundo depois de uma aspiração traqueal. Acho interessante às vezes compartilhar um pouco dessas sensações de certo alívio, sendo que momentos antes de ser aspirado, eu estava a todo custo puxando o ar mesmo que esse fosse uma boa parte ofertado pelo meu aparelho respiratório, isso porque acabei de fazer inalação, e assim, com o catarro fluidificado, esse se torna quase uma grande quantidade de saliva que de certa forma gera um desconforto extremo dando a sensação de ficar sufocado.

Existem momentos em que eu estou inalando e a quantidade de catarro chega a ser um pouco superior que o normal, e quando respiro, uma pequena parte acaba saindo pela cânula, o que não quer dizer que isso já dá um certo alívio, pois a maior parte concentra-se ainda no fundo da traqueia.

É bem complicado explicar essas coisas, mas de tão complicado torna-se algo difícil de entender para muitos que não estão na situação, ou mesmo se porem no lugar para sentir o quanto isso chega a incomodar. Muitas vezes, passa na cabeça de muitos quando vão me aspirar, que não tem nada, aliás, semana passada mesmo uma técnica de enfermagem daqui, me aspirando, disse que não havia o que tirar da minha traqueia, mas ela não estava sentindo o desconforto que sinto quando um breve roncar surge quando o ventilador joga o ar para o meu pulmão e meio. Peço gentilmente que as pessoas tenham um pouco de paciência comigo, pois tem algo sim aqui dentro que tem que ser tirado e que, infelizmente, devido à minha anatomia, a sonda não chega ao lugar que eu tanto gostaria.

Às vezes, quando se faz uma pequena pressão ao introduzir a sonda, e essa encontra uma resistência, eu gesticulo com meu dedo indicador direito para que se introduza um pouco mais, mesmo que haja essa resistência e, não sei o por que, de repente a sonda entra mais e vai de encontro ao foco onde a secreção esteja concentrada, ponto esse principal o qual desejo mais do que tudo que esteja livre para eu poder respirar melhor, e assim, quando isso acontece, há um tremendo alívio. Claro que isso provoca imenso medo na equipe que cuida de mim, pois sem querer podem machucar por dentro e provocar um sangramento, mas é aquele ponto que precisa mais que tudo ser limpo.

Em certos dias, quando acordo cedo pela manhã, o catarro começa a incomodar, é justamente o horário que ainda não entrou ninguém aqui e estão na passagem de plantão. No momento que acontece isso, o catarro bloqueia por completo essa região de minha traqueia e torna-se torturante. Tento de todas as maneiras abrir esse ponto que esteja coberto para o ar entrar, mas somente com o aparelho respiratório não consigo. Assim, eu abaixo a cabeceira de minha cama, desconecto o aparelho de minha traqueia, tampo a abertura da traqueia com o dedo e com a boca, impulsiono o ar para dentro dos meus pulmões, vou puxando o ar até inflar o suficiente para que, de repente, o ponto coberto pelo catarro se abra, e assim, consigo uma oportunidade de alívio. Isso não é nada simples, é dolorido, chegando ao ponto de quase estourar meus pulmões, mas eu preciso abrir aquele ponto para que eu possa respirar.

Como eu disse, quando esse lugar está bloqueado, torna-se torturante, vem a falta de ar, e em instantes tenho que fazer de tudo para não entrar em desespero e, no momento que consigo liberar esse ponto, paro tudo que estou fazendo para, assim, poder usufruir melhor do ar que respiro.

Mas, vocês devem estar se perguntando, o que há de interessante nesses detalhes que o Paulo está mostrando? Eu não sei quanto a vocês, mas acredito que a partir do momento que suas vias respiratórias estejam livres, é muito além do alívio físico, é poder respirar e apenas ficar tranquilo.

Eu realmente não tenho ideia do que isso representa, mas para mim é tudo, é o principal, é o que realmente preciso.

Na verdade, até aqui expressei meu sentimento de alívio quando fui aspirado, porém, a ideia desse texto era bem outra. Desde ontem eu estava pensando no que realmente escrever. No início, eu estava pensando em compartilhar lembranças de outono que vivi, já que estamos nessa linda e agradável estação. As Quatros Estações, uma clássica música de Antonio Vivaldi, representa em sua harmonia, melodias dedicadas a cada solstício que nos encanta. Infelizmente, hoje não tenho mais a oportunidade que bons anos atrás eu tive.

Eu ficava em um quarto grande, acompanhado de meus seis irmãos queridos e muito amados. Era um quarto com seis grandes janelas, todas de vidros transparentes, e assim dava para muitas vezes receber a sombra das árvores em dias ensolarados. Assim, dava claramente para perceber detalhes lindos e maravilhosos das transformações da natureza que lindamente nos encantava. No outono, eu observava o vento levando embora as folhas secas e amareladas, essas árvores majestosas, e quando quase sem nenhuma folha, eis que a mudança surgia com o chegar da primavera, e assim, em meio ao passar do tempo, essa que estava quase sem vida, se tornava florida nos transmitindo alegria.

Os pássaros bem perto nos acordavam, anunciando um novo dia, claro ou nublado, mas que a qualquer momento dava para ver essas lindas árvores que por anos contemplei. Infelizmente, hoje não mais posso acompanhar essas lindas transformações, apenas na luz do dia consigo somente perceber se o dia está claro ou nublado, e quando está um lindo céu azul, o Sol nos abençoa com o seu lindo reinar, que nos permite ter uma gostosa satisfação de vida.