Dolorido e cruel

Por Folha

Não sou nenhum biólogo, físico ou astrônomo. Na verdade, tudo que sei vem de curiosas descobertas do passado, de quando eu colecionava uma antiga enciclopédia que vinha em fascículo. O nome era ‘Conhecer Universal’ e, infelizmente, não completei a coleção.

Naquela época, quem comprava os fascículos para mim era minha prima. Porém, assim como hoje, essas coisas que tanto gostamos são deveras caras. Para eu chegar ao verdadeiro tema desse texto, procuro expressar momentos que, de certa maneira, chamaram atenção quanto as descobertas íntimas de nosso corpo.

Para alguns isso pode ser uma grande surpresa, mas a paralisia infantil, ou Poliomielite,  afeta apenas os músculos, impedindo-os de serem funcionais. Assim, não me permitiu caminhar, sentir o frio do chão, a textura do solo, os grãos de areia da praia.

Mas tudo isso não tem nada haver com toda a sensibilidade que tenho e timidamente expresso. Certas partes de meu corpo estão muito vivas.

Quando garoto, em uma cadeira de rodas, vivia passeando nos corredores do instituto. Alguns quartos por onde eu passava fechavam as portas se alguém estivesse sendo banhado, ou tomando banho. Essa curiosidade era massiva, e sempre me perguntava o que é uma mulher ou como ela seria.

Já expressei algumas vezes meus atos inocentes e atrevidos de ir ao conhecimento do que realmente somos. Quando eu menos esperava, algo em mim incomodava. Parecia ter vontade própria e, quando eu era banhado, não conseguia esconder o que para muitos era vergonhoso. Já fui como qualquer garoto ávido por mostrar sua espada firme em busca de sua donzela.

Brincadeiras à parte, nada me impediu de ter meus sentimentos e desejos, um universo estranho e complicado, como se fosse um novo planeta desabitado. De repente você começa a dar seus passos para iniciar sua exploração. Surpreendentemente você não está sozinho, e quando em sua frente quem surge lhe agrada os olhos, nada melhor do que procurar se aproximar da melhor forma possível para assim não permitir que aquela criatura fuja de sua presença.

Escrevi pouco sobre minhas paixões. Uma brisa de lembrança vem de quando eu era criança no hospital. Uma moça tocou o meu coração, porém, quase imperceptível, a lembrança se distancia.

Foram momentos extremamente doloridos, esses tempos de amor não correspondido, que na loucura de um alívio de uma chama ardente, dava lugar ao desespero. O louco desespero me ofertava ilusões de satisfação de vida, clamava o meu nome para que me lançasse ao infinito. Porém, por mais que eu quisesse, minha condição física não me permitia. Na obrigatoriedade da vida, minhas feridas foram cicatrizadas e hoje me encontro perdido, permitindo que em minha vida nasça sempre um novo amor.

Já amei demais e, nessa areia movediça, fui me afundando em atos impensáveis. Atos esses que os maiores poetas do mundo teriam a compreensão do quanto fui corajoso naquilo que acreditei para poder acender a chama dessa paixão pela qual meu coração clamava. Nada me diferenciou de todos. Nada me poupou o mínimo para que não fosse tão dolorido e cruel.