Um dia, aos dez anos de idade

Por paulohenrique

Estou às vésperas do que, para mim, é o maior evento de videogames do mundo. Claro que, aqui em São Paulo, Brasil, estes eventos são mais que bem vindos e maravilhosos. Infelizmente, eu não tive a oportunidade de viajar para lugares mais distantes até agora, então estes momentos anuais me deixam mais que feliz.

Antes de tudo, há mais de 40 anos atrás, meus passeios eram surpresas. Lembro-me claramente de um dia, aos meus sete anos, quando me vestiram com roupas diferentes das quais eu estava acostumado. Todos os dias me vestiam com macacões que eu gostava, com estampas de desenhos infantis, e eu passava os dias traquinando no berço. Porém, naquele dia específico, me colocaram uma camisa e um shorts. Eu não tinha ideia do que estava acontecendo: era o meu primeiro passeio ao zoológico.

Essa memória, tão distante, só me permite ver poucos flashes, onde, ao longe, carregado no colo, pude ver o gorila dentro de sua jaula. Na cadeira de rodas, fui levado a um lugar onde haviam aquários com cobras dentro. Poucas gotas daquele momento, que lembro com satisfação.

Os anos se passaram e novas surpresas foram vindo. Outra vez, me vestiram diferente do habitual e o a ideia era fazer um passeio no circo –quando chegamos lá, estava fechado por causa da chuva. Eu não era o único convidado nesses passeios: outras doces crianças, vitimas da pólio, também iam comigo. A alegria que nos rodeava era tanta que não percebemos que, devido ao mau tempo, havia o risco de ter que voltar sem ver nada.

Hoje, sei o que fez daquele dia chuvoso um dia tão feliz. O médico que estava conosco foi até o dono do circo, explicou que vínhamos do hospital para passar um tempo fora e que gostaria muito que ao menos pudessem nos alegrar com a presença dos palhaços. Comovido, o dono do circo fez além do que esperávamos. Nos alegrou imensamente com malabaristas, mágicos e palhaços no picadeiro. Lembro de ter vistos cavalos enfeitados e o que mais me encantou foi ver a dança das águas que subiam e desciam em cores hipnóticas. Além de tudo isso, nossos rostos foram pintados e voltamos para o hospital com uma felicidade indescritível.

A Cidade das Crianças, em São Bernardo do Campo, foi outro destino dos nossos passeios. Lembro claramente de quase ter feito as pessoas que foram comigo vomitarem quando me colocaram nas Xícaras Dançantes. Havia uma espécie de volante no meio das cabines e, sem saber para que servia, comecei a girá-lo. De repente, aquele xícara começou a rodar com mais velocidade. Olhando para o céu que rodava, a sensação de alegria invadiu meu ser e, rindo descontroladamente, eu virava com mais força aquela roda até perceber que meus companheiros quase desmaiaram. Pediram para eu parar com aquilo e então saí daquele brinquedo muito divertido.

Aquele dia foi a primeira vez que entrei em um submarino (pequeno). Muitos olhavam através das pequenas janelas circulares para ver os peixes (eu não vi nenhum) e o chão do submarino era transparente, o que tornava possível ver os corais lá embaixo.

Em 1977, teve um passeio inesquecível. Foi o ano da estreia de um filme no cinema e por causa disso, o Playcenter promoveu uma atração que eu fiz de tudo para ir. Eu tinha 10 anos. Pedi ao médico que cuidava da gente para nos levar ao Playcenter. Naquela época, assim como hoje, havia uma grande preocupação com a nossa saúde e alguns, devido à condição física, não poderiam ir.

Embirrei e resolvi fazer uma greve de fome. Surpreendentemente, meus coleguinhas de quarto fizeram o mesmo. Assim, além de mim, mais dois ou três amigos foram passear num parque de diversões pela primeira vez.

Não me recordo a data exata desse dia maravilhoso mas, como fotos de um álbum vivo, lembro de comer churros com doce de leite pela primeira vez. Na verdade, foi apenas uma mordida: o doce estava muito quente e o interesse pela diversão era bem maior.

Foi a primeira vez que joguei em “arcades”. Lembro claramente que, quando chegou a minha vez de jogar, os funcionários do local não deixaram que eu comprasse as velhas fichas em forma de moedas –assim, para que eu pudesse jogar, eles mexiam atrás da máquina e liberavam os jogos para mim. Porém, como eu era pequeno e a cadeira de rodas, baixa, não consegui fazer quase nada –a não ser girar um volante para para guiar um carro numa pista de corrida virtual.

Cansei dos games. Me conduziram pelas alamedas do parque, lotadas de gente que passeavam com seus filhos comendo algodão doce, até chegar na casa mal assombrada. Me tiraram da cadeira e me sentaram no assento de um veículo sobre trilhos. Ao lado de uma auxiliar de enfermagem, a Tia Nair (hoje aposentada), o carrinho começou a andar. Subindo um caminho trilhado, entramos em uma gruta escura e, a partir daquele momento, confesso que o medo tomou conta de mim. Eu esperava que aquela tortura passasse logo mas, conforme me guiavam pelo ambiente escuro, o pavor vinha com tudo quando as luzes iluminavam personagens de filme de terror. Não me recordo de ter visto muita coisa mas, assim que acabou, disfarcei. O sorriso voltou ao meu rosto.

Novamente na cadeira de rodas, fui levado a atração que eu tanto sonhava ver. No local, muita gente se aglomerava diante de um palco ainda fechado, mas o que havia ali era tão grande que dava para ver o topo da cabeça da criatura por trás das cortinas. Foi necessário me levar mais para frente –a pessoa que me empurrava abria caminho entre os espectadores, pedindo passagem.

 

Diante do palco, fiquei deslumbrado com cada detalhe. As luzes principais se apagaram outras focaram nas cortinas que se abriam, revelando o maior “animatronic” que eu vi na vida. Encantado com tanta monstruosidade, vi aquela criatura começar a ter vida. Sua boca se abriu, mostrando os dentes enormes, e em seguida veio um grito ensurdecedor, que fez o chão tremer. Suas mãos se soltaram dos grandes blocos de pedra a que estavam presas e seus braços se ergueram. Seus olhos nos focavam, provocando um temor em massa. Alguns minutos depois, surgiu uma moça que, transportada por um cipó, foi de encontro a enorme mão daquele ícone do cinema: King Kong!

Durante o desenvolvimento do livro “Pulmão de Aço”, lançado em 2012 e escrito pela artista plástica Eliana Zagui, que de muitos anos que mora aqui comigo, é para mim, a minha verdadeira irmã, informei à jornalista e uma de minhas melhores amigas Ana Landi, que esse grande sonho fora realizado em 1980. Porém, eu estava completamente enganado, pois o lançamento do filme “King Kong” (com Jessica Lange como protagonista) foi em 1977. Não sei se a moça que se lançou na mão do enorme monstro era a atriz.

Aquele dia foi especial demais para mim: depois de sair da enorme gruta que era o palco do Rei Kong, continuei me aventurando no parque. Fui levado até um local onde tinha o jogo de lançar argolas. Eu queria muito tentar me divertir, mas quando o responsável pela tenda, muito generoso, me viu sentado em uma cadeira de rodas, ganhei uma grande bola inflável de presente. Mesmo assim, como ainda tinha vontade de brincar, tive o prazer de me divertir três vezes, acertando poucas argolas nos pinos.

Naquele dia, coincidentemente, tinha uma promoção da Nestlé. Havia uma casa –uma fábrica de chocolate, pelo que lembro. Uma grande fila surgiu quando o local foi aberto e assim era oferecido chocolate quente para quem tivesse cinco embalagens de chocolate. O médico que estava comigo me presenteou com cinco embalagens e, assim, fui levado a essa fila. Chegando minha vez, apresentei as embalagens para a moça que estava no atendimento que, em vez de pegar as embalagens, me deu um copo cheio de um chocolate quente cremoso –sem pedir nada em troco.

Assim que terminei aquele delicioso chocolate, perguntei ao Tio, o médico, se eu poderia pegar outro. Como eu ainda tinha as embalagens, retornamos para fila. Novamente, a moça recusou-as e me deu outro chocolate quente.  Deliciado com a gostosa bebida, convenci o Tio a me levar novamente a fila –dessa vez, ele pediu para a moça aceitar as embalagens, senão eu não nunca iria parar de tomar aquele chocolate quente maravilhoso.

Esse fato histórico da minha vida  foi roteirizado e dirigido por mim em um episódio de uma série que ainda pretendo criar, chamada “Brincadeirantes”. No momento, somente há o primeiro episódio que me mostra tendo uma grande dor de barriga depois de tanto tomar chocolate quente.

Ganhei muitos presentes e um deles, que eu gostaria muito de ter até hoje, era um quebra-cabeça do personagem que eu mais amo do cinema: King Kong.