Dias Chuvosos

Por paulohenrique

Dias chuvosos, seguidos de raios e trovões, em certos momentos me refletem anos passados acompanhados de meus entes queridos e amados. Eu e mais seis irmãos não nos permitimos a ociosidade em meio a um quarto iluminado pela luz artificial e lá fora as nuvens carregadas dançavam com as copas das árvores, onde o vento conduzia uma coreografia encantadora.

Olhando para os prédios vizinhos, gotas frias e geladas caem deixando grandes marcas de umidade em suas paredes de pequenos quadrados de pedras. Estes prédios que desde que vim para cá são monumentos imponentes que diante da janela molhada pela chuva distorcem como pinturas seculares.

Dias assim refletem uma tranquilidade, deixando o tempo passar lentamente nos ofertando um desejo dormente de apenas levantar a coberta e o peso de nossos cansaços caírem sobre nossas pálpebras.

Mas, em dias distante que há muito o tempo os levou, eu e meus amiguinhos permeados pela sombra do marasmo, sempre procurávamos algo que permitisse que o tempo se acelerasse. Em meio ao silêncio quebrado apenas pelos sons fora de ritmo de nossos ventiladores, ficávamos compenetrados em nossos afazeres em torno de brincadeiras ou ler um gibi.

Apesar de a Pólio afetar minhas irmãs de forma duramente cruel, não lhes permitindo nenhum movimento sequer, elas, sim, faziam muito mais do que eu, que apenas queria me envolver nas aventuras maravilhosas de Mickey e outros personagens Disney.

Naquele momento, cada um ficava na sua, na maioria das vezes, preferimos nos manter atentos ao que tanto gostávamos de fazer, do que seguir uma tarefa. A Tânia ficava horas desenhando, expressando em papeis brancos sua alma mágica de ser e se revelar uma doce pessoa. Eliana, em seu lindo olhar verde, vivia na curiosidade por tudo ao seu redor. Com apenas uma espátula de madeira na boca, vivia trocando as fraudas de suas bonecas, ou preparando as comidinhas para elas em panelinhas de plástico. Certa vez, pediu a uma atendente de enfermagem que colocasse um soro em uma boneca, expressando, assim, as vezes que dolorosamente tinham que lhe aplicar uma agulha em sua veia para administrar a medicação devido às enfermidades que por vezes surgiam.

Essa atendente de enfermagem, entendendo sua intensão fez o mais real possível, introduzindo uma agulha bem fina em um pequeno braço de plástico e fazendo com que o soro caísse em demoradas gotas para o corpo oco da boneca. Assim, Eliana se sentia responsável por cuidar de sua filha inerte, em momentos em que era necessário trocar a fralda pois a água do soro que entrava na boneca saía por entre os encaixe de suas pernas. A forma mais fiel que em, sua inocência, Eliana expressou sua dura realidade em um artefato de plástico.

Claudia era a mais quieta e a mais próxima de Eliana. Ela também, adquirindo conhecimento de sua companheira, procurava fazer o mesmo, buscando se divertir em brincadeiras de casinha, tornando-se ambas amigas inseparáveis durante anos.

Quando estava com a gente, Anderson brincava com seus carrinhos, e quando as técnicas de enfermagem o traziam para perto de mim e do Pedro, criávamos brincadeiras diversas entre nós, rapazes.

Além da crueldade imensa da doença chamada Poliomielite, Luciana teve complicações severas devido a um momento em que o aparelho respiratório escapou de sua traqueia. Sem ninguém por perto e muito menos sem ter condições de chamar alguém, houve tempo suficiente em que, sem oxigênio, seu cérebro teve sequelas. Ela não falava. Uma doce e inocente criança que, até sua juventude, se comunicava com a gente de maneira peculiar. Sua forma de chamar atenção era através de gostosas gargalhadas que nos encantava com sua doce presença. Luciana, ou Lu, carinhosamente chamada por nós, tinha vários brinquedos ao seu redor que eram tocados apenas pelos seus lindos olhos azuis. Ao final de sua estadia aqui com a gente, seu estado se agravou, o que aconteceu no passado se reprisou e quando vieram ao seu socorro, mais um pedaço de seu cérebro morreu, e daí por diante, ao invés de nos ofertar seu lindo gargalhar, a Lu somente nos ofertava seu choro. Daquele ponto em diante, a Lu vinha se despedindo para em breve um anjo se tornar.

Eu fui uma pessoa cruel em demasia, pode ser que eu ainda seja, mas hoje tenho opções melhores para que eu tente mudar. Mas, naquela época, eu me permitia ser dominado pela inveja, ciúmes e egoísmo. Para mim, meus seis irmãos não tinham nada disso, eram perfeitos e amigos. Lembro claramente como se estivessem presentes, os atos cruéis que fiz aos meus amigos e irmãos que não mereciam. Hoje, estes pensamentos que me assombram, tornam-se dores, e grande arrependimento.

Durante anos, os dias foram assim, em meios a algumas atendentes que para nós eram rígidas, ficávamos o mais quietos possível, cada um na sua e todos atentos aos seus divertimentos. Porém, quando estávamos acompanhados por atendentes que eram legais com a gente, era grande diversão, tudo era mais alegre, mais feliz, e mais gostoso.

Saiamos pouco do quarto e quando essas atendentes legais vinham ficar com a gente, pedíamos que nos colocassem nas macas para que a gente pudesse passear nos corredores do instituto ou mesmo passar um momento na varanda e assim, sentir a brisa do ar de fora, ver as grandes árvores e ouvir claramente o mundo lá fora. Eram momento deliciosos que adorávamos ter.

Às vezes, eu mesmo, naquele tempo, não queria ir para lugar algum, queria apenas ficar em minha cama, jogando Super Nintendo. Quando eu ganhava um “Game Over”, voltava minha atenção ao grande quarto vazio. Lá fora, o lindo azul do céu reinava, e a luz do Sol invadia o quarto, vindo das grandes janelas. Era lindo e encantador. Eu poderia sim estar perdendo algo por não estar lá na varanda com meus amigos mas, aquilo já era para mim o suficiente para que jamais saísse de minha mente.

Conhecer o videogame, me permitiu sonhar. Naquela época, o peso da responsabilidade não eram tão grande, e o que mais eu gostava de fazer, era me transpor a um mundo imaginário, uma ilusão da fuga da realidade que hoje torna-se um verdadeiro desafio.

Conhecer o videogame não somente invadiu minha mente como também, em minhas noites, eu sonhava e desejava estar em um mundo diferente do qual sempre estive. Viver uma vida sem nenhuma preocupação e estar envolto de personagens e mundos fantásticos em busca da vitória. Quanto mais difícil era cada jogo, mais eu me desafiava e, assim, dormia pensando em como enfrentar tal situação e sair campeão.

Um jogo sempre se faz presente em minha mente, em dias assim chuvosos. Quando consegui o Super Nintendo, não tínhamos dinheiro para comprar mais cartuchos e, assim, quando era sábado, o dia de visitas do padre que nos deu o Phantom System, pedimos a ele que alugasse algum jogo para nós. Assim, alguns sábados ele nos trazia um cartucho para nos deliciar e devolver na segunda. O jogo que ele alugou e que muito gostei se chama “The Legend of the Mystical Ninja”, um jogo de aventura em um cenário oriental muito divertido e difícil.

Outros jogos alugados vieram com muita felicidade e quando ele nos trouxe “Joe & Mac” pedimos que esse título fosse alugado mais de uma vez.

Tínhamos um amigo ventríloquo que, quando veio da primeira vez, me disse que seu nome era Ulisses e na oportunidade de uma pequena brincadeira quando ele perguntou qual era o meu nome lhe respondi Guimarães. Surpreso com a resposta, lhe disse que não, que meu nome é Paulo. Naquela ocasião eu estava jogando “Axeley”.

Juntei um dinheiro para tentar comprar um jogo novo e parar de alugar. Eu não tinha certeza se a quantia que eu tinha daria para comprar algum cartucho, mas, dias depois de eu ter conhecido Ulisses, lhe dei o dinheiro e dei um nome de um título de um jogo que eu queria. Uma semana depois, naqueles saudosos anos, ele me trouxe, “Zelda A Link to The Past”. Mais ainda me apaixonei pelos jogos e hoje não me vejo mais sem eles.