Paixão e Desafio

Por paulohenrique

Penso que muitos devem saber que moro desde meu 1 ano e meio de idade em uma área hospitalar. Sendo o maior hospital da América Latina, aqui dentro do Instituto de Ortopedia e Traumatologia, há quase 50 anos tenho em minhas lembranças cenas que muitas vezes se fazem presentes.

Em certos momentos do dia, dependendo da luz do Sol que reflete da janela, como mágica vêm me despertar imagens de meu passado, me fazem desejar reviver episódios jamais esquecidos.

Não quero que julguem que eu esteja em um ambiente hostil, nada disso, na verdade, sempre digo e afirmo: aqui estou mais que protegido, mas, realmente, o que tenho para hoje é aguardar que a situação aqui melhore um pouco.

Sinto que o mundo hoje esteja coberto com algo invisível que, de certa maneira, nos impede de vermos a beleza que nos cerca. Sinto que o véu de algo ruim encobre a todos que, incapazes de ofertar o sorriso, dedicam o silêncio. Sinto que a fome da alma, de espalhar o amor a todos, esteja cada vez mais presente e, assim, nos sentimos desamparados e, sem pensar, agimos de maneira assustadora e inesperada.

Mas, quando de repente um azul vindo de um céu limpo banha as paredes de meu quarto, desejo imensamente estar no momento que estive anos atrás, diante de uma TV, assistindo com tanta alegria às gostosas comédias de Jerry Lewis. Porém, tratando-se de momentos pouco próximos, o que vem do meu desejo seria estar novamente com o Pedrinho, jogando os videogames que durante anos nos foram muitos mais que apenas diversão, foram o sentido da vida.

Ficamos meses jogando Ghostbusters no Phantom System dado por um padre que sempre vinha nos ver. Aquela trilha sonora vinda do jogo muitas vezes irritava as pessoas que estavam ao nosso redor, eram os profissionais médicos ou enfermeiras que exigiam que deixássemos o som da TV o mais baixo possível. Naquela época, um médico que trabalhava aqui e sempre estava presente com a gente em nosso quarto, emprestava cartuchos do seu filho, e foi aí que conhecemos o famoso encanador e bigodudo Mario. Eu e o Pedro não queríamos mais nada a não ser viver dentro do mundo encantado de Super Mario.

Em Super Mario 3, era além de desafiador, extremamente divertido. Houve até momentos de sonhos durante a madrugada de estar vivendo em um lugar diferente de tudo que já vivi, onde a Nintendo era quem dominava esse mundo de meus devaneios e todos tinham o mesmo desejo, de estar acompanhado desse personagem muito amado.

Mas, como eu havia dito, eram cartuchos emprestados e, assim, tínhamos que voltar a jogar os poucos títulos que tínhamos.

Posso dar uma lista muito grande de vários jogos que eu e o Pedro tínhamos durante nosso envolvimento com o clone da Nintendo aqui no Brasil, porém, prefiro citar alguns que mais curtimos e até hoje estão bem presente em minhas memórias.

Eu e o Pedro disputávamos as vezes em que cada quebra-cabeça do jogo Solomon’s Key nos desafiava. Antes de cada etapa, observávamos bem o cenário para tentar pegar a chave, pegar as fadas, os tesouros e chegar até a porta de saída. A trilha sonora desse jogo está agora mesmo passando em minha mente, fazendo desse cartucho o mais querido de muitos.

Outro título baseado em um filme de Arnold Schwarzenegger, “The Predator”, nos provocava grande raiva, por menor que fosse seu movimento ao pular uma superfície, você sempre caía, e era uma grande alegria quando um de nós dois passávamos de fase.

Castlevania, Contra e muitos outros títulos de jogos passaram em nossas mãos, mas há um título de um jogo em japonês que nos cativou imensamente. “Akumajō Special: Boku Dracula-kun”, é um game de aventura de um jovem Drácula.

Naquela época, havia muitos cartuchos alternativos e alguns desses não entravam direto no Phantom System, pois este era no padrão americano e a maioria dos jogos que tínhamos eram de padrão japonês, necessitando, assim, de um adaptador para encaixá-los no console.

Hoje, temos uma tecnologia que permite jogos bem próximos à nossa realidade, com gráficos exuberantes. Temos uma sensação de realmente estarmos em outros mundos, mas naquela época era diferente, além da quantidade de objetos na tela que um jogo poderia mostrar, o fator de cores também era importante, e mesmo com uma qualidade gráfica baixa, havia jogos que enchiam os olhos. Um deles até penso em criar um “remake” por ter cenas muito lindas que mostravam tradições faraônicas. “Legendary Wings” foi um jogo em que eu e o Pedro colocávamos toda a nossa atenção em dois homens pássaros que voavam sobre ruínas de um Egito imaginário. Tínhamos que atirar em objetos que surgiam na tela e de repente, éramos sugados por grandes carrancas que nos levavam a cavernas misteriosas. Realmente um belo e lindo jogo.

Eu e o Pedro não tínhamos outros dispositivos de tecnologia de manipulação de objetos na tela a não ser o videogame. Tinha um grande médico naquela época, que desde minha internação aqui já trabalhava. Ele era pneumologista, e tinha muito amor à sua especialidade. Vira e mexe ele sempre tinha novas ideias para melhorar nossa condição de vida. Dr. Saraiva era como um grande pai para todos nós. Hoje, com toda a certeza, ele se encontra ao lado do Pai Eterno. Faleceu há uns 10 anos, mas nos deixou marcas de um amor infinito.

Dr. Saraiva, quando vivo, com sua criatividade inventava dispositivos de respiração e cada um de nós naquela época testávamos suas invenções que nos ajudavam imensamente. Um dia, ele veio com uma grande novidade, uma ferramenta para suas pesquisas e ajuda profissional, um computador, para ser mais exato, era um TK-2000 da Microdigital. Eu e o Pedro ficamos curiosos para conhecer o computador, e naquele momento, ele somente nos permitiu vê-lo funcionando em seu laboratório. Em uma TV em preto e branco, apenas números e letras informando cálculos matemáticos que não entendíamos.

Alguns anos depois, eu consegui meu primeiro computador, mas, isso é uma outra linda e grande historia.