Era tudo em um criado-mudo

Por paulohenrique

Dando uma certa continuidade ao texto em que deixo poucos detalhes sobre o meu início no envolvimento com os videogames, exploro aqui um pouco mais como foram essas inesquecíveis aventuras.

Antes da chegada dessa tecnologia, eu e o Pedro, que era o meu coleguinha e irmão de quarto mais próximo, vivíamos inventando brincadeiras. Nossas mentes não nos permitiam apenas ficar deitados nas camas sem nada o que fazer durante o dia. Além dos gibis e revistas que líamos, tínhamos o desejo de fazer outras coisas. Talvez algo que fosse além de nossas capacidades, mas aí sempre quebrávamos a cara quando a realidade nos impunha nossos limites físicos.

O Pedrinho tinha uma condição motora um pouco boa, a qual seu braço direito tinha um movimento razoável já que seu braço esquerdo quase não movimentava. O meu caso é bem diferente, tenho bons movimentos em ambos os braços porém, não consigo erguê-los sozinho, para isso, uso meu braço direito como apoio para o meu braço esquerdo. Assim, para eu poder trabalhar, fazer minhas coisas, fico praticamente o dia todo virado para a direita. O Pedrinho virava sempre para a esquerda, sendo essa a posição que ele conseguia fazer tudo aquilo que ele quisesse.

Assim, ambos ficávamos um de frente para o outro e, para criar nossas brincadeiras, pedíamos sempre que deixássemos encostados o mais próximo um do outro e um criado-mudo entre nós, que seria o nosso estádio de futebol, pista de corrida, campo de guerra ou seja lá o que nossa imaginação nos permitisse criar.

Naquela época havia uma certa infestação de insetos. Baratas então, haviam aos montes –dentro e fora dos criados-mudos, sem esquecer de mencionar que as formigas também eram nossas companheiras. Assim, peço desculpas a quem neste momento estiver lendo meu texto: este criado-mudo às vezes era campos de concentração, onde com uma lente de aumento e o sol batendo forte da janela que iluminava em cheio esse campo, eu concentrava a luz com essa lente e perseguia a formiga que passava. Em instantes ela era chamuscada pela luz intensa.

Bem, deixando a crueldade de lado, da qual hoje me arrependo, como de outras façanhas maldosas que fiz na juventude, assim foram nossas distrações, até não haver condições físicas do Pedro continuar virado para a esquerda e brincar comigo. Começou a ficar cansativo, e foi então que partimos dessa etapa para as grandes aventuras no mundo eletrônico.

O Telejogo 2, logo ficou enjoativo. Com seus dez jogos, o Ping Pong era sempre o mais disputado. De tanto ver a bolinha indo para a esquerda e direita, pontos eram ganhos em duelos difíceis quando a velocidade aumentava. Passávamos horas, dias jogando sem vontade de parar. Porém, chegou o momento do console estar abandonado e em uma gaveta ele deu o seu adeus, nos deixando um sabor doce dos momentos de alegria que tanto nos ofertou.

O videogame seguinte foi o Atari. Eu ganhei em um Natal no inicio da década de 1980. Uma prima minha, já sabendo que eu existia e morava em um hospital, passou grande parte de sua vida buscando por mim. Ela perguntava ao meu pai onde eu estaria e ele, não sabendo o motivo, não lhe respondia. Ela morava em Uberlândia, Minas Gerais. Segundo ela, em um encontro com o médium já falecido Chico Xavier, ele a chamou para perto e lhe disse que o que tanto ela procurava, estava em São Paulo. A partir daí, ela se muda para cá, e vai de hospital em hospital em minha busca.

Não me lembro o ano que foi, mas acredito que tenha sido em 1983. Era um domingo, a enfermeira-chefe vem ao meu encontro e diz que tem uma visita para mim. Diz ser minha prima e, como ela veio de longe, a enfermeira-chefe permitiu sua entrada, já que não era horário de visitas.

Daquele ponto em diante, surgiu uma nova etapa em minha vida, a qual para mim era rara. Não quero deixar aqui algo que muitos possam julgar –a pouca visita que eu recebia do meu pai e da minha madrasta– como um ato de abandono. Houveram motivos para isso e hoje posso tê-los sempre comigo.

Minha prima praticamente me adotou como seu filho, já que naquele momento ela tinha problemas para engravidar, apesar de casada. Vinha quase todos os dias, e não somente a mim mas, também para os meus coleguinhas de quarto, meus seis irmãos, lhes ofertou imenso amor.

Como todo ser mimado, tive os meus abusos. Ela sempre quando vinha me dava muitos presentes. Roupas, brinquedos, tênis, tudo aquilo que naquela época eu não tive. Quando eu queria algo que pela condição dela era caro, fazia birras e chantagens emocionais até que conseguir o que tanto desejava. Assim foi com o Atari. Durante um ano todo eu lhe dizia que queria esse videogame e como ela sabia que eu tinha um Telejogo 2, ela dizia o que muitos que não entendem dizem, “todos os videogames são iguais”.

Ganhei dela o Atari tão sonhado e aí novas aventuras trouxeram imensa felicidade.

Eu e o Pedro ficamos com aquele Atari por muito tempo. No início eram apenas dois cartuchos mas, conforme o tempo foi passando, ganhávamos de amigos muitos outros jogos. Os que mais me recordo foram os jogos semelhantes ao “Space Invaders”, nos quais você tinha que atirar em objetos que passavam na tela. Alguns não entendíamos ao certo o que tínhamos que fazer, mas era incrível ver como a nave que a gente comandava tinha um movimento impressionante na tela, justamente pelo Atari não ter muitos detalhes nos jogos.

Mas, até hoje, lembro claramente aquela nave que parecia uma arraia que, quando eu ia para esquerda ou direita, para cima ou para baixo, eu ficava surpreso com a forma que ela mexia, como se fosse uma dança, mas que, infelizmente, não sabíamos como jogar. “Enduro” era um jogo que logo enjoamos, sendo uma corrida que apenas o clima quando mudava dava certa dificuldade, mas  ficar guiando o carro e desviando dos que vinham de surpresa não era muito empolgante.

Poucos anos depois, já com o Atari praticamente jogado em uma bancada, eu estava em busca de outro videogame que pudesse nos dar nova diversão. Naquela época, na Rede Globo, a TecToy tinha um programa apresentado pelo ator e diretor Miguel Falabella, era mostrado dicas e jogos do Master System. Vendo a qualidade daqueles jogos, fiquei meses pensando como seria possível ter um novo console.

Em dezembro daquele ano, me atrevi a pedir de Natal um videogame novo a um padre que trabalhava aqui na capelania do hospital. Quando lhe fiz o pedido, ele apenas disse que veria a possibilidade. Claro que eu tinha a consciência de que, assim como hoje, naquela época os videogames eram extremamente caros mas, tive a esperança de um dia ter uma nova tecnologia para minha diversão, sendo que o Pedro também tinha que ser meu parceiro no mundo virtual.

Um mês depois em janeiro, aquele padre nos presenteou com o Phantom System. Não era o que queríamos mas sim, foi a melhor opção que tivemos. Os meses se passaram e muitos cartuchos ganhamos para um “clone” da Nintendo. Assim nasceu meu imenso amor pela Big N. Dali por diante, os videogames seguintes dessa empresa japonesa eram sempre os mais sonhados.

Existem muitas histórias para serem contadas as quais o fato de ser apenas videogames não deixa de expressar momentos jamais esquecidos, recheados por lindos e belos sonhos de entrar realmente no maravilhoso mundo do Super Mario Bros.