Desistir nunca

Por paulohenrique

Essa semana teve momentos bons, muito agradáveis até, sobre os quais compartilhei alguns vídeos e poucas fotos nas redes sociais. Recebi a maravilhosa visita da banda Kiss Cover Brazil. Confesso que, um dia antes da vinda deles, eu estava com grande medo: aqui é um hospital e existem regras que estão acima de mim –tenho que respeitá-las.

Na noite da véspera da visita, eu e meu irmão tivemos uma discussão via WhatsApp.  Há em mim um certo exagero no medo de promover algum desconforto no ambiente em que vivo, onde o silêncio só é quebrado por dores físicas e perdas inseparáveis.

Depois que a nossa conversa se tranquilizou, procurei refletir sobre minha situação aqui dentro e realmente vi que, além dos meus limites físicos, também vivo numa prisão mental. Acredito muito que, quando criança, levei alguns momentos a sério demais e eles determinaram o que devo ou não seguir.

Apenas sei que somos moldados por pessoas que, por sua visão, nos mostram um caminho triste e nada agradável: se eu realmente levasse tudo muito a sério, tudo que tenho hoje não existiria. Eu não seria o que sou e não existiria tudo aquilo que criei.

Durante a vida que me pertence, houve sorrisos e alegrias, choros e tristezas. A curiosidade imperou em mim de tal maneira que cada dificuldade que surgia gerava grandes conquistas. Quando algo caía no chão, eu, deitado deitado na cama, ficava matutando meios de poder pegar o objeto. Às vezes, a tiras do avental que uso eram grandes ferramentas; outras, um lençol.

Quando caiam certas coisas, eu procurava em minha gaveta algo com que pudesse pescá-las de volta. Minha gaveta era um mundo de tudo aquilo que eu conquistava ou que achava importante. Aliás, hoje ainda é assim: tenho melhores opções para pegar as coisas do chão sem maiores riscos.

Antes, porém, houve momentos em que eu até caí da cama, por tentar tais façanhas de obter algo que estava longe do meu alcance. De traumas em traumas, fui em busca de novos caminhos para ser menos dependentes de pessoas, para que elas não tivessem que pegar o que eu, sem querer, derrubava.

Em uma dessas tentativas, um rolo de durex era a única coisa com a qual eu tinha a chance de pegar um objeto no chão. Pensei: se eu desenrolar o durex até alcançar aquilo, quem sabe a fita gruda nele e eu posso puxá-lo para cima? Nas primeiras tentativas veio a frustração: o objeto chegava a grudar e, a certa altura, se soltava. As tentativas me cansavam fisicamente. Como na cama fico virado para a direita, meu braço direito muitas vezes perdia a circulação por eu manter meu peso sobre ele. Quando isso ficava insuportável, eu me virava de barriga para cima para aliviar. O objetivo, porém, ainda permanecia no chão.

Depois de poucos minutos, voltei a cumprir minha tarefa. Era questão de honra, aquilo não me venceria. Novamente na posição certa e com o durex já grudado naquele objeto, lentamente fui puxando para cima. Sem poder vê-lo, fui puxando bem lentamente o durex entre os dedos da minha mão esquerda. Dava para sentir o peso daquele objeto, que se mantinha grudado ao durex, e bem devagar eu o puxava até senti-lo próximo de meus dedos.

Mais alguns centímetros e eu conquistaria aquele prêmio. Era como se quilômetros de distância estivessem em minhas mãos, e aos poucos que ia puxando, me tornava mais próximo de obter aquilo que tanto almejava. De olhos fechados, tentava, de todas as maneiras, puxar o durex de forma que aquilo que eu muito queria continuasse preso. Os segundos se passavam e aquele objeto não estava nem perto de estar comigo.

Ao esticar meu dedo indicador, sinto o objeto grudado ao durex. Numa tentativa de puxar apenas um centímetro, bem lentamente, vem o inesperado: o objeto se solta e cai ao chão novamente.

A sensação de frustração foi tamanha que deu lugar a um sentimento ruim, a raiva. Olhei tudo ao meu redor, dando um tempo para essa sensação ir embora. Uns quinze minutos depois, voltei à façanha. Não queria desistir, iria vencer.

Com meus dentes, cortei o durex já estragado e soltei uma tira nova para novamente tentar resgatar aquele objeto do chão. Um desafio muito insignificante para praticamente todo mundo, mas não para mim. Me posicionei, mantendo meu braço esquerdo para fora da cama, com o durex já solto, e o coloquei no objeto, que estava quase em baixo da cama. Esperei poucos segundos antes de puxá-lo. Puxei apenas para ver se o objeto se aderiu ao durex e, depois, comecei a luta para a conquista da vitória.

Eu passava o durex entre meus dedos e o objeto se erguia. Parei imediatamente quando, de repente, ele começou a balançar. Já mais confiante, voltei a puxá-lo lentamente. Parecia que ele estava mais próximo. Eu estava certo de que ia conseguir. Bem devagar, com meus olhos bem fechados, voltei toda minha atenção para a minha mão esquerda. Com um movimento bem sutil, senti o objeto mais próximo. Mais alguns centímetros e tudo iria se concluir. Com meu dedo indicador, senti que aquele diamante tão desejado está perto e, em com uma puxada contínua entre meus dedos, o peguei com todas as minhas forças: aquela bolinha de borracha, com a qual eu brincava feliz.