Dificuldades

Por Folha

 

Acordei às 7h15, tirei todas as cobertas que estavam em cima de mim, descobri o meu rosto e, quando dava para ver a luz do dia, me preparei para ativar o que eu chamo de meu escritório. Uma mesa completamente lotada, onde, além de muita tecnologia, fica o meu Mac.

Sempre que acordo, a primeira coisa que faço é me manter online. Ligo o meu computador, coloco meu relógio para carregar e, por fim, ligo o meu celular. Hoje, algo de estranho aconteceu. Apertei bem forte o botão para ligar o computador e nada de ele dar sinal de vida. Algumas tentativas depois, percebi que o no-break estava totalmente descarregado. Quando fui olhar para a tomada dele, ela estava meio para fora e bem longe de meu alcance. Não tenho como me levantar da cama e encaixar melhor a tomada que estava quase solta.

Olhando para o relógio acima da porta de entrada aqui do quarto, vi que passava das 7h30. Assim, resolvi esperar que alguém entrasse. Seria ridículo eu ligar para a UTI apenas para pedir que apertassem a tomada do no-break que estava saindo.

Durante aquele tempo de ociosidade, fiquei olhando os detalhes de um quarto em silêncio e ainda um pouco escuro. Na mesa de meu escritório, tenho uma varinha feita de um arame de aço mais ou menos de um metro e meio. A ponta dessa varinha é dobrada de forma que eu possa “pescar” as coisas que às vezes caem ao chão. Vou dar um exemplo para que vocês possam imaginar: os controles remotos da maioria de meus equipamentos são cobertos com plásticos filmes de embrulhar alimentos. Em um certo ponto do controle, passo uma fita adesiva para fixar uma fita feita de qualquer tipo de material, desde que dê para formar uma alça. Assim, se este controle cair, com esta varinha posso pegá-lo sem problemas.

Meu celular estava com apenas 10% de bateria. Peguei essa varinha e desci o encosto de minha cama até eu poder ver o fio branco de seu carregador. Com a varinha, consegui pescá-lo. Na oportunidade, tentei fixar a tomada do no-break que estava solta mas não deu certo. O jeito era esperar. Com o fio do carregador do meu celular em mãos, conectei o fio a ele e esperei que ligasse completamente. Quando a logomarca da Mac sumiu da tela, chegou a solicitação de minha senha para desbloqueá-lo. Em seguida, pede o código PIN para desbloquear o chip de minha operadora de telefonia móvel.

Bem, o que fazer agora? Sem energia elétrica para alimentar meus equipamentos e muito menos o modem para navegar na internet, o jeito é ativar o problemático 3G de nossas vidas. Ao fazê-lo, rapidamente chegam poucas mensagens pelo WhatsApp. Dou bom dia para poucos amigos e vejo se tem alguma novidade no Messenger. Aceitando novas mensagens de meus queridos e muitos amados amigos, fico na indecisão de jogar ou não algo para ver se o tempo passa mais rápido. Enquanto pensava que fazer, olhava ao redor e algo me hipnotizou — bem na porta da entrada do quarto, a luz divina do sol iluminava. Era lindo ver aquela luz brilhando. Rapidamente, com meu celular em mãos, tirei uma foto. Às 8:21 fiquei maravilhado com o encanto do momento raro que é ver o sol entrando no meu quarto.

Nesse instante, vem a vontade e a saudade de estar ao ar livre e poder sentir a brisa de fora, o vento passar no meu rosto e a alegria me abraçar. As emoções vêm ao encontro de momentos que hoje estão muito distantes. Na minha juventude, em um quarto com meus outros irmãos, voltam aqueles sentimentos aquecidos de quando, em manhãs de meio-dia, era necessário fechar a persiana quando, em janelas transparentes, o sol dava o seu esplendor. Eu não deixava que fechassem as persianas, gostava de sentir o aquecer daquele astro imenso. Eu me atrevia a olhá-lo diretamente e, não suportando sua luz, olhava ao redor enquanto sua marca vermelha preenchia minha visão por poucos minutos até voltar ao normal.

Como foram bons esse dias que vivi durante a minha juventude. Hoje, cercado por quatro paredes, sei  apenas se o céu esta azul ou cinza, nada além disso. Este ano ainda não tive oportunidade de sair. Estou ansioso para que outubro chegue e eu possa passar um pouco de minha vida em outros lugares. Ver pessoas, ser abraçado pelo calor humano, e estar com o sorriso estampado com muita alegria. As dificuldades existem para nos obrigar a vencer, e aqui, por mais complicado que seja, eu tenho a máxima certeza, tudo, dará muito certo.