Dor, Meu Amor

Por paulohenrique

Hoje, talvez eu não tenha o que reclamar. Estou bem, querendo fazer minhas coisas, inventar, crescer e progredir. Mas, ao mesmo tempo, parece que nada me ajuda a seguir, o momento mostra-se em câmera lenta, e você acha que nada está acontecendo durante dias.

Dá a sensação que todos tiraram férias e você ficou de escanteio. Mas, tenho que seguir e acreditar que um dia, esse marasmo chegue ao fim. Nesse exato momento, olhando para a luz do dia, parece que há sol lá fora, me faz lembrar dos momentos de pouca liberdade que tive, os poucos finais de semana assim, nesse instante, eu já sofria as crises de ansiedade na espera de um amigo que me levasse para passear. Foi muito bom o tempo que tive de poder me ausentar um pouco do hospital e passar as tardes em um shopping ou dentro de uma sala de cinema, assistindo grandes estreias.

No ano que vem farão dez anos que deixei uma vida de muita alegria, uma vida de liberdade sofrida em uma cadeira de rodas motorizada, a qual meu corpo reclamava conforto diante das dores que eu vivia. Eu sentia que jamais eu deveria estar onde eu estava, jamais deveria sentir o sol, ou estar diante de muitos desconhecidos na espera do sinal aberto para atravessar uma rua e chegar na calçada em minha frente. Parece que, onde quer que eu estivesse, a dor comigo seguia, e assim, nas oportunidades, pedia sempre a quem estivesse comigo, que abaixasse o encosto da cadeira, para que eu pudesse aliviar aquela dor que era como minha inseparável amiga.

Mesmo assim, não era de todo ruim os momentos mais tranquilos que para mim eram um passatempo mais que maravilhoso, como estar dentro do cinema, pois, enquanto o filme estaria passando, eu ficava com o encosto da cadeira inclinado, quase deitado, praticamente sem dor.

Durante um bom tempo lutei para que eu pudesse sair um pouco daqui e, não que fosse uma vida de completa liberdade mas, eu estava muito satisfeito com a vida que eu tinha. Foram praticamente dez anos de muita alegria, os quais agradeço imensamente as vezes que assisti a trilogia “O Senhor dos Anéis”. De Star Wars então nem se fala, quando o sorriso em meu rosto estampado revelava estar diante de fãs desse universo fantasiados com seus personagens favoritos. Na era de Harry Potter, eu desejava que milhares de varinhas mágicas nas mãos de incontáveis magos, fossem de verdade, pois era muito divertido ver a fila de espera repleta de bruxos de Hogwarts.

Assisti muitos e muitos filmes no cinema, os quais também marcam saudades, ver Maximus duelando com outros gladiadores, em uma grande tela no antigo cinema Astor na Av. Paulista.
Foram momentos maravilhosos para mim, e hoje, ficam apenas lembranças que jamais esqueço. Eu sempre digo que me arrependo muito ter conhecido o cinema muito tarde. Meu primeiro filme na grande tela foi Independence Day, em 1996. Eu queria poder ser frequentador de cinema muito tempo antes, poder assistir Robocop, ou The Hunger, Alien, O Oitavo Passageiro, 2001 Uma Odisseia no Espaço, O Iluminado ou Bladerunner.

Mas, fui vencido pela dor que tanto me seguia. Dominado por uma paixão que acreditava estar livre, me permiti cair no fracasso. Ela era alguém que em 1993 foi contratada para trabalhar aqui como técnica de enfermagem. De longe eu via sua beleza, sua maneira de agir e se envolver com sua profissão. Fiquei hipnotizado de tal maneira por sua beleza, que parecia que o mundo não existia. Era somente eu e ela e minha imensa luta de querer conquistá-la. Eu a desejava mais que tudo nesse mundo.

Durante um tempo, eu lhe confesso que tive um sonho de nós dois. Um sonho quente molhado onde juntos vivíamos no amor. Apenas um sorriso veio de seu lindo rosto quando lhe contei esse meu devaneio e assim, o mundo se calou. Passados alguns meses naquela época, ela veio a mim, e disse que invadi sua madrugada, em um sonho igual ao meu. Sabendo disso, tive um ímpeto de alegria, onde o sentido da vida, foi como estar diante do sol, e sua luz ser maior que tudo! Lhe propus então que pudéssemos realizar nossas fantasias, o que ela responde que somente quando pedisse as contas daqui do hospital. Nesse momento, meu mundo caiu, pois eu acreditava que jamais ela deixaria de trabalhar aqui, dedicando totalmente sua vida, nos cuidados com o próximo.

Mas, a vida nos prega grandes surpresas e, em dezembro de 2002, ela pede a conta, e vai embora para o Amazonas com um filho recém-nascido no colo. Como se a gaiola fosse aberta, me senti livre, durante anos, eu me sentia preso a uma teia brilhante, que foi tecida por uma utopia de um amor dilacerante. Foram momentos amargos, desgostosos e sem sentido para mim. Tudo me consumia, tudo me desesperava. Depois de sua partida, era como se de repente o céu voltasse a ficar azul, e tudo mais brilhante.

Eu tinha fé de que aquele momento em diante, eu estava pronto para a vida e assim, seguir tudo que vivi durante bons anos. Porém, em 2006, em uma manhã de quarta-feira, não me recordo o mês mas, penso ter sido em março, ela entra inesperadamente no quarto. Como um fogo ardente, meu coração dispara e naquele instante tudo parou.

Primeiro ela foi cumprimentar minha irmã Eliana e poucos minutos depois, veio até a mim. Me perguntou se eu lembrava dela e respondi que, mesmo distante, jamais a esqueci. De repente, ela me pergunta se lembro de nossos sonhos. Com minha resposta positiva ela pede para que eu marque o dia de nosso encontro. Por todos os prêmios que alguém pode conquistar, naquele momento, a felicidade era como todos os valores em ouro que possam existir.

Porém, confesso a todos os leitores que aqui acreditam que eu havia alcançado os céus, mas, na verdade, abri sim, a porta do inferno. Eu posso dizer que tudo daquele ponto em diante, foi se definhando. Eu comecei a viver somente para ela, e cada dia sendo sugando por este sentimento que bem pouco ela alimentava, eu não queria mais ninguém, apenas sua companhia.

Os amigos que tanto saiam comigo, me ligavam pedindo minha presença em suas vidas, e eu os negava, pois para mim, apenas estar com aquela que há anos lutei para conquistar, era minha satisfação de vida, e assim, nas poucas chances em que ela vinha me ver, eram migalhas dadas a um mendigo preso na loucura de uma paixão assassina.

Foi um ano em que tudo joguei fora. Um ano em que as conquistas mais que difíceis estavam em minhas mãos, escaparam como minúsculos grãos de areia, que por mais que eu colocasse forças, elas saiam pelos vãos de meus dedos. Hoje, aqui estou, lutando ainda pela vida, conquistando o que tenho ao meu lado, e livre, por um amor que há quatro anos, faleceu e foi embora para perto de Deus.