Algo Realmente Está Errado

Por paulohenrique

Posso confessar algo e ao mesmo tempo ser sincero? Estou em agonia emocional. Aí vocês me perguntam: “Cadê o serviço de psicologia do hospital?” Bem, ele existe, e funciona muito bem. O fato é que nem eu mesmo sei o que tanto busco. Apenas passo a maioria dos meus dias absorvendo tudo que se passa ao meu redor. Não consigo entender o que se passa e muito menos definir o porquê de repente as coisas estão do jeito que estão.

Qualquer um pode julgar que eu esteja depressivo ou seja lá o que for, mas costumo dizer que diante de minha vida, quase meio século dentro de um hospital, não há praticamente problema algum. Vejo como exemplo famílias que lutam a cada dia para manter o sustento em suas casas, alimentar seus filhos e a si mesmos. Buscar meios para melhoria da qualidade de suas vidas, progredir nos estudos e avançar de maneira honrosa e bem sacrificada.

Mas, sou humano, e nesse instante me vejo como uma escultura em bronze que se encontra na França chamada Le Penseur, ou, O Pensador, que durante anos, desde sua criação em 1880 por Auguste Rodin, nos deixa refletindo sobre nossa existência aqui.

É muito fácil muitos nos cobrarem algum propósito, mas, será que estão em nossa pele? Não estão, e claro, vitimizar-nos é colocar nossas cabeças na guilhotina, e isso não é nada saudável e muito menos justo. Sabe, eu vejo cada detalhe dessa nossa maravilhosa vida, que me permite chegar a grandes conclusões. Para começar, estamos grudados nesse chão pelo efeito gravitacional que a Terra exerce sobre nós, sendo assim, tudo tem seu peso, e acredito que não somente coisas materiais são atraídas para baixo como também nossas almas.

É muito mais fácil crer que somos nada, mas aí vem novamente o nosso coitadismo em vista. Essa palavra não existe, mas somos inteligentes o suficiente para entender que se trata de uma palavra que nos condena.

Eu mesmo digo para minha psicóloga que às vezes me vejo em uma corte sendo julgado por um monte de mim mesmo, apontando seus dedos, com olhares famintos, desejando minha destruição. Ninguém tem ideia do que é isso. Posso muito bem definir imagens em palavras, para que tenham uma sútil ideia do que realmente vem a ser esse demônio que nesse momento me domina. Eu estaria vestido com uma camisa de força sem condições de agir como eu realmente gostaria. Posso gritar, estourar os meus pulmões e meu clamor ser apenas um sussurro e praticamente ninguém me ouvir.

Posso estar acorrentado com grossa corrente, que não suportando seu peso, me faz cair em um chão arenoso. Posso estar em um poço profundo, onde olhando para cima, uma minúscula luz vem de um céu cinzento.

Algo realmente está errado. Estou estático. Com frio. Triste. Desamparado. Cada sentimento desse revela quem sou. Penso que muitos esquecem que, acima de tudo, sou humano. Se me tocarem, sinto seu toque, se me beijarem, sinto seus lábios, se me olharem, vejo seu olhar. Mas será que percebem tudo isso vindo de mim? Ou apenas são rituais comuns considerando que até cães fazem o mesmo? Será que não tem algo de diferente?

Sabe, eu sempre procuro dedicar ao meu próximo tudo do bom e do melhor, mas todos sabem muito bem que não somos perfeitos, e por essa mancha escura que temos, muitas vezes somos cegos em nosso agir, e sem querer, com desespero, em um labirinto em breu, damos violentos socos para todas as direções, atingindo, assim, aqueles que somente querem nos ajudar.

Penso que praticamente todos pedem por ajuda, assim como eu faço agora, mas o que realmente quero? Tenho muito medo de expor certos sentimentos e no julgamento de todos sou mal visto. Mas ao meus olhos, o que tanto busco é muito simples, porém, para muitos, preferem dar as costas por não terem coragem de se arriscar. Para mim, o nosso maior erro é jamais arriscar realmente viver, e assim, devido às agonias, preferimos morrer na dúvida.

Eu sempre digo que tudo vale a pena, sim, vale muito a pena, quando encontramos alguém, aproximar-se, olhar em seus olhos, sendo este o primeiro sinal de comunicação, e desse ponto, surgir um sorriso. Vale muito a pena explorar cada vida e se descobrir cada vez mais acrescentando aprendizados vindo de outros, e assim, criamos um universo de envolvimento.

Mas, não vale a pena nos enclausurarmos em nossas conchas, pois nos tornamos egoístas, e deixamos de viver algo realmente muito especial.

Eu quero viver, quero muito viver, para mim, não somente para os outros.