Solidão

Por paulohenrique

Hoje, neste sábado nublado, que promove mais a ociosidade do que a vontade de ficar acordado por mais que o pesar caia sobre o meu corpo, como se fosse um edredom quente e macio, tenho que me erguer e fazer o que tanto gosto e preciso, viver.

Em dias assim, procuro algo que faça com que o tempo corra com mais entusiasmo. Em alguns momentos, penso se algum amigo fará uma visita. Dias como esse, que desde criança vivi, vêm de encontro à lembranças, como ir de quarto em quarto, no intuito de provocar algum agito.

Eu era mirrado, magrinho, e em uma cadeira de rodas em que, geralmente, por ser fácil para mim, eu andava de ré. De olhar atento no corredor, prestava atenção se eu não estava sendo observado. Entrava em um quarto vazio, ia até a pia e, munido de uma cuba de aço inox, tentava equilibrá-la na beirada da pia. Quando ficava da maneira que eu queria, abria a torneira bem devagarinho para que apenas formasse um filete de água que caia dentro da cuba, e assim dava tempo de eu sair do quarto sem que ninguém me visse. Quando eu estava a uma certa distância, dava para ouvir a cuba cair para dentro da pia, gerando um barulho que despertava a todos, que iriam ver o que tinha acontecido.

Eu fazia a brincadeira apenas uma vez no mesmo dia, pois a pergunta que permeava o ambiente era: “quem deixou uma cuba cheia de água dentro da pia?” Claro, eu não assumiria o meu erro. Era apenas uma brincadeira de criança. Eu não gostava daqueles dias chatos, em que não havia quase ninguém e em minha visão, aquele silêncio era como um túnel quase sem fim.

Às vezes dava vontade de entrar em algum quarto ocupado por alguém e tentar criar uma amizade, mas nem sempre dava certo. Ou era um bebê, e eu não tinha ideia  de como conversar, ou alguém que estava dormindo. Lembro apenas, como fotos maltratadas pelo tempo, dos momentos em que comecei a criar vínculos com aqueles que durante anos seriam meus irmãos.

Mas, a maior parte de minha vivência aqui foi na cama e, estando deitado, não havia o que fazer a não ser ficar olhando os detalhes do quarto. Quando o Sol iluminava as paredes, olhando para o céu, imaginava como seria voar e poder sentir a liberdade. Algumas vezes passavam aviões distantes e, na carona de seu rastro, eu os seguia até não poder mais vê-los.

Olhava para o chão e ficava atento com o caminhar lento do Sol, que majestosamente iluminava com grande esplendor. Poeiras dançavam naquela luz inebriante e, assim, o tempo passava até chegar o momento que me dava medo: a noite.

Certo dia, em um berço com as grades erguidas, descobri que com impulso ele andava. Assim, dava meus impulsos na tentativa de sair do quarto. Ao me aproximar da porta, infelizmente alguém me chamava a atenção e me colocava onde eu menos queria estar: perto da janela.

Em dias chuvosos, eu observava o Instituto Central pela janela respingada. Um prédio de pedra que, quando chovia, aparentava um cinza escuro. Quando a chuva cessava, ficava atento ao momento em que determinadas partes das paredes externas secavam e assim, aquele monumento distante tornava-se claro novamente.

Das janelas da frente, do prédio onde me encontro, a vida é mais agitada: há uma rua que sobe distante e logo à frente a Faculdade de Medicina. Quando garoto, eu ficava olhando ao longe uma bandeira Brasileira hasteada em dias comemorativos, anunciando momentos históricos e patrióticos.

Há anos não vejo mais isso.

Mas esse menino ainda está num quarto solitário, envolto na solidão, desejando que o Sol o acompanhe e que, de mãos dadas, vivamos no sorriso da alegria, ambos satisfeitos com a vida que nos foi dada.