A Cerimônia do Oscar Uma Saudade do Verdadeiro Cinema

Por paulohenrique

Às vésperas da cerimônia do Oscar, venho aqui compartilhar poucos momentos em minha memória, de um amor intenso e profundo por essa arte encantadora que coloca vida nas grandes telas, chamada cinema.

Minha paixão pela Sétima Arte vem desde cedo, regada pelos maravilhosos filmes de Chaplin e Jerry Lewis, mas não somente falando das comédias da vida mas também das coreografias dançantes de Fred Astaire. Como uma criança que fui, sem ter a oportunidade de um seio materno, vivia a olhar os belos decotes das atrizes que davam seu charme malicioso aos filmes que outrora fizeram de mim um faminto pela arte cinematográfica. Não somente pelas técnicas aplicadas em cada filme, mas também querendo e desejando conhecer cada ator, atriz, diretor e compositor, responsáveis por marcar momentos inesquecíveis em minha vida.

Lendo uma biografia não autorizada de um diretor conhecido mundialmente e criador de um fenômeno que permitiu dentre muitas seitas e religiões nascer o Jedismo, vem sua frase que me chama muito a atenção: “É um trabalho pesado fazer um filme. É como ser médico, você trabalha horas a fio, horas difíceis, e é um trabalho tenso. Se você realmente não gosta, não vale a pena” (George Lucas). Esse pensamento me faz ver o quanto trabalhar na criação de uma obra, uma história entre imagem e som, é extremo, onde não somente suas ideias e profissionalismo são ferramentas principais para que tudo seja concluído, mas que o principal de tudo é investido de maneira intensa, sua alma.

Estando envolvidos apenas como um leitor em um livro baseado em suas vidas. Vejo o quanto Lucas lutou para concluir tudo o que ele sempre sonhou, e que fossem da maneira que ele sempre exigiu. Foram tarefas de extrema dificuldade. Você então generaliza e sabe muito bem que assim foi e continua sendo, seja com quem for, e qual universo está envolvido, que as dificuldades existem para nos porem à prova e nos fazerem vencedores.

Em minha infância, eu era um pirralho, que nas horas sem com o que brincar, ficava concentrado na tela em preto e branco de uma TV pequena, em que um filme de ficção me deixou traumatizado com seu final, onde o personagem principal entra em uma parede, não conseguindo atravessá-la por completo, ficando apenas sua mão para fora. Para quem quiser saber que filme é esse, chama-se Quarta Dimensão – 4D Man de 1959.

Fui também marcado por outro excelente ator, Vincent Price, que com seu exímio trabalho no filme A Mosca – The Fly, também de 1959, criou um personagem marcante em filmes de terror e suspense, o Abominável Dr. Phibes, a quem eu não conseguia encarar por muito tempo, fazendo com que eu virasse meu rosto devido ao medo em mim instaurado.

A cerimônia do Oscar, para mim, é um evento o qual desde que o conheci tenho o desejo de estar presente. Não sou nenhum amante profissional do cinema; entre nós há um excelente crítico, que o respeito muito. Rubens Ewald Filho, para mim, sempre foi um guia nas artes cênicas, e sua visão sempre revela detalhes pouco percebidos e de grande importância. Conhecedor de uma imensa gama desse universo, eu gostaria muito de ter essa oportunidade que ele mesmo, durante sua carreira, seguiu, e é mais que um professor para aqueles que, assim como eu, ama o cinema.

Sempre digo que conheci muito tarde o cinema. Minha primeira vez, dentro de uma sala de exibição, diante de uma tela que me enchia os olhos, com encantadoras cenas de efeitos especiais, foi em 1996, assistindo Independence Day. Hoje, vivo pensando nos grandes diretores que mereciam muito minha presença nas salas de cinemas, não que eu seja um crítico, mas sim pelo amor que eu tenho a todos eles. Quando penso nisso, vêm à minha mente imagens de filmes jamais esquecidos, que fazem parte de minha coleção. David Bowie e Catherine Deneuve em Fome de Viver – The Hanger, de 1983, Alien O Oitavo Passageiro – Alien, de 1974, cujo diretor, Ridley Scott, está no topo da lista de meus favoritos, sendo também seu outro filme Blade Runner, O Caçador de Androids, de 1982, uma obra que parte muito o meu coração não ter tido a chance de vê-lo em uma grande tela de cinema.

Stanley Kubrick, com o seu 2001 Uma Odisseia no Espaço, me faz fechar os olhos, e me transportar para uma sala de exibição, e ter a emoção de estar vendo uma obra digna de respeito e merecedora de grandes honrarias.

Eu queria muito ter conhecido o cinema bem cedo, e dedicar minha vida a esse universo que tanto amo.

Quando garoto, somente assistia a cerimônia do Oscar na reprise, que geralmente eram aos sábados. Ficava encantado com as cenas daqueles filmes que depois de anos passariam na TV, mas que foram premiados por suas excelências.

Hoje, o cinema me faz falta, deixa uma saudade. Acompanhado em minha mente, da trilha sonora criada por James Horner, vem as cenas do filme Lendas da Paixão – Legends of the Fall, o qual me faz crer que filmes feitos com a sensibilidade da alma estão cada vez mais distantes, estão cada dia mais dando o seu adeus.

Pode ser que algum crítico leia esse meu texto, e com seu olhar torça o seu nariz, por aqui eu citar filmes indignos de serem lembrados, mas minha vida foi e tem sido em um hospital. Desculpa ou não, tenho uma parcela de conhecimento, que pode sim superar uma boa porcentagem. Tenho uma visão própria da vida, e sempre vejo cenas de momentos que vivi, nas lembranças guardadas pelas câmeras profissionais.

Em certos filmes, sinto o desejo ardente de estar presente, naquele universo lindo, onde a aventura se passa com duas crianças em busca do Pássaro Azul. O início desse filme que jamais esqueço, de 1940, começa em preto e branco e quando surgem as cores esqueço minha realidade, me sinto presente diante de Mytyl, a linda e bela criança interpretada por uma diva do cinema, Shirley Temple.

Sinto falta realmente do cinema, de como ele era em sua inocência, onde os efeitos especiais eram humanos e não digitais. Onde Charlton Heston, em 1959, expressa realmente uma dor dilacerante ao puxar o remo com outros escravos, ao som de uma trilha sonora seguida do tambor, no filme Ben Hur. Surgem duas sensações, uma, de mostrar sua força de vontade e seguir em frente, mas também uma repulsa pela exigência desses impérios romanos que foram no passado. Cada detalhe dessa cena me faz respirar fundo a cada puxada para levar a embarcação adiante.

Hoje o cinema está ausente. Talvez tenha se transformado em um monstro, comedor de dinheiro do mundo, mostrando em sua tela cenas rápidas e coloridas, cheias de estranhas coreografias, fazendo nossos corações baterem fortes, na ansiedade de nossa existência ainda estar salva.

Eu amo o cinema.