Gotas que Partiram

Por paulohenrique

Fiquei dias pensando no que escrever, sem que deixasse uma mensagem triste, ou mesmo sem sentido. Fiquei horas refletindo sobre cada palavra e letras que as definem, procurando meios de expor ideias, sabores e amores.

Tenho tantas gotas de passado, e cada uma reflete memórias distantes, sendo essas boas e ruins. Claro que pretendo aqui deixar verdades de experiências felizes e saudosas do que vivi um dia.

Foram passados vividos entre descobertas e fascínios, sendo que mesmo em meus limites, considero de grandes conquistas.

Durante muitos anos, quando não eram somente dois, haviam sete. Dentre estes, cinco irmãos que não mais estão entre nós. O que mais próximo estava de mim era o Pedro. Ele era meu grande companheiro nas brincadeiras inventadas, que nos levavam a imaginários pequenos campos de futebol, que era um criado mudo, onde driblávamos uma pequena bola feita de papel amassado; só havia dois jogadores, nossas mãos, que eram os craques nas tentativas de dribles, e cada gol, era uma bola perdida. Assim, a cada partida, o chão ficava cheio de papel amassado.

Vez ou outra, aquele campo de futebol, se transformava em uma pista oval de corrida, onde dois carros amarrados por cordões disputavam infinitas voltas que acabavam ou pelo cansaço ou quando um dos cordões arrebentava, fazendo com que o carro descesse barranco abaixo, explodindo em nossas mentes, como um acidente fatal. Nesse caso, a brincadeira acabava, pois tínhamos que esperar alguém para pegar o carrinho que geralmente caia atrás do criado mudo.

Mas, a paixão de Pedro era o futebol, e conforme o tempo foi passando, as brincadeiras foram se modernizando, e de uma bolinha de papel amassado, ganhamos jogos de botões, que fizeram naquele momento nosso vício, nosso viver, nossas emoções.

Os anos se passaram, e quando nossas brincadeiras que se tornaram sem graça e sem sentido, encontramos novas diversões na tecnologia, e o que mais nos divertia, eram os jogos de videogame.

Pedro era meu grande companheiro, me salvava em situações de risco, ou era um corredor assíduo, nas temporadas de Fórmula 1 virtual. Ele era tudo, ele era o máximo, ele era forte.

Já não estávamos mais tão unidos quando algo muito ruim estava presente no Pedro. Ele tinha consciência do que era, e com medo de um agravamento, as pessoas que trabalhavam na época, preferiam nos manter em certa distância.

Tínhamos o melhor videogame que alguém pudesse ter, mas a fraqueza dominava Pedro, e aos poucos ele se distanciava.

Lembro de uma certa noite, assistindo ao filme Aventura no Espaço (SpaceCamp), na Globo, veio um amigo nos visitar, eram mais das 22h e achei estranho que esse amigo pudesse entrar. Ele disse que veio por causa do Pedro, que havia pedido ele para vir, pois precisava desabafar.

Pedro estava doente, e assim, isso o consumia física e emocionalmente.

O momento mais dolorido de minha memória inicia-se no dia 25 de dezembro de 1992, um Natal em meio à tensão e ao silêncio. O dia anterior a essa data, no final da tarde, fora de ânimo e alegria, regado com boa comida e muito sorvete. Estávamos acompanhados por um médico que para nós era um pai, e o Pedro mesmo o chamava assim. Sempre a companhia desse médico era um momento muito feliz, e ao Pedro, ele sempre oferecia o melhor que pudesse.

Mas, como eu havia dito, a data Natalina foi de tensão e silêncio. Praticamente o dia todo Pedro dormia, a nós, deixava apenas a tensão por sua ausência causada pela fraqueza que o dominava. Eu queria meu companheiro ao meu lado para jogar comigo, mas ele estava abatido. Vieram seus pais, os quais, além de serem humildes, moravam muito longe. Trouxeram comida, e muito amor, para estar ao lado de seu filho Pedro, mas ele não encontrava forças para poder lhes ofertar alegria e sua presença.

À noite, eu não suportava mais aquilo, queria que ao menos Pedro acordasse, para nos dar alegria. Pedi ao médico de plantão que chamasse aquele médico que o Pedro tinha como pai. Vendo não somente o meu desespero mas também de todos nós, o médico que estava de plantão foi ao posto de enfermagem e fez a ligação. Poucos minutos depois, retorna ao nosso quarto dizendo que em 15 minutos o outro médico viria.

Esperei ansioso pela vinda daquele médico para tentar ver o que poderia ser feito para que o Pedro acordasse e desse um pouquinho do seu calor para todos nós. Um pouco mais das 22 horas, esse médico entra em nosso quarto, tira sua jaqueta preta, e vai direto ao Pedro, medir seu pulso. Olha para o ventilador mecânico e pede algumas coisas para a enfermeira e uma auxiliar de enfermagem.

Instantes depois, ele faz uns procedimentos no Pedro, verificando pulso, novamente o aparelho, e lhe dando um remédio. Para sua presença, o Pedro abriu os olhos, e acordou nos ofertando um aquecer na alma, e um pouco de esperança.

Ele já conversava com a gente, mostrava sinais de melhora, e assim sendo, esse médico se despediu da gente, pois teria que voltar para casa.

Estávamos mais tranquilos, Pedro estava presente, e conversava com a gente.

Já era madrugada, e assim, sabendo que Pedro estava bem, resolvi dormir.

Não sei quanto tempo se passou, mas abri os meus olhos e havia gente no quarto, e quando fui olhar, Pedro estava passando mal. O médico de plantão, que ainda era o mesmo que chamou o outro que era o pai de Pedro, estava ao seu lado, junto com a enfermeira e uma auxiliar.

Pedro olhou para mim, estava com a respiração ofegante e disse que seu ventilador mecânico estava ruim. Assim, sem pensar, desconectei o meu de minha traqueia, e disse para o médico passar o meu para o Pedro, pois o meu estava bom. Preocupado apenas se eu ficaria sem, o médico então faz a troca, e quando colocou o meu aparelho nele, ele voltou a respirar bem.

Daquele ponto em diante, não dormi mais. O quarto com a luz fraca estava em silêncio, apenas com o som dos ventiladores que nos mantinham respirando.

Eu estava ao lado de Pedro, que descansava, dormindo, com a feição de ter tido uma grande batalha. Mas, eu estava ali, olhando para ele, pensando em cada gota de vida que tivemos juntos.

Eu tinha esperança que tudo iria passar, e que novamente seríamos uma grande dupla nos jogos de videogame.

Chega sete da manhã, olho para a janela, e vejo que o dia será claro, com poucas nuvens. O outro médico daquele plantão tinha acabado de chegar, olhou para o nosso quarto, viu o Pedro que estava dormindo, e fez um sinal negativo com a cabeça, indo em seguida para o quarto dos médicos, pegar o plantão com o médico do dia anterior.

Menos de uma hora, vêm a enfermeira-chefe e duas auxiliares e levam Pedro para a UTI. Uma despedida apenas em segundos, onde nossos olhares se encontram entre o medo e a esperança.

Passamos o dia inteiro sem ter o que pensar, apenas no nosso irmão que não estava mais em nosso quarto. Eu não queria jogar, não queria comer, não queria sorvete.

Antes das 16 horas do dia 26 de dezembro de 1992, o médico de plantão entra em nosso quarto em silêncio, seguido por uma enfermeira que estava chorando, e uma auxiliar. Ele estava com suas mãos para trás, andando lentamente, até o fim de nosso quarto e voltando. Por um momento, ele olhou para a enfermeira que chorava, fez um gesto de afirmação com a cabeça, e nos informou que Pedro tinha tido duas paradas, e conseguiram reanimá-lo, mas que nessa terceira vez eles não estavam mais conseguindo trazê-lo de volta, e que, infelizmente, não havia mais o que pudesse ser feito.

Pela primeira vez, algo que somente víamos em notícias ou filmes chegou a nós, a perda de um irmão, a perda de um herói, a perda de alguém que foi para nós a alegria, o amor, e o sentido da vida.

Hoje, outros irmãos também foram, e cada mutilação que foram essas perdas, nos trouxe o crescer, o aprender, e a vontade de lutar e viver e conquistar tudo aquilo que ainda temos pela frente.

Sonhos estes que nos farão muito mais que vencedores.