Traumas da vida

Por paulohenrique

Aprendi, sendo herdeiro de certos traumas, a agir de maneira mais coesa possível. Claro que isso nos traz certas mágoas devido a atitudes inesperadas, que nos cercam com uma manta do medo que nos acompanha praticamente a vida toda.

Tenho certas lembranças bem claras e visíveis diante de mim, e não as considero responsáveis por estes atos que me machucaram. Olhando para trás, vem até um sorriso em meu rosto, onde observo os choros e soluços da criança que um dia fui.

Era um momento de desamparo, sentia-me desprotegido. Numa noite bem dormida, acordo na madrugada sentindo a umidade do xixi que fiz na cama. Aquela umidade quente se tornara gelada quando alguém veio me trocar gritando palavras de ordem, me sentou sem roupas em uma cadeira de rodas e me levou ao fundo do corredor com pouca luz.

Era uma maneira de me chamar atenção para que eu jamais molhasse a cama, como uma mãe amavelmente cruel.

Isso era comum em épocas passadas e pode ser que ainda exista em algumas famílias nos dias de hoje. Foi para mim um aprendizado: naquele momento, entre lágrimas, procurava pensar em alguém que viesse a mim, como uma fada imaginária, me ofertando consolo e amor.

As crianças agem de maneira inocente, em busca de novas descobertas. Também fui um desses seres frágeis na conquista de novos passos a seguir, e, sem pensar, em um dia de meu aniversário, diante de um bolo rocambole de chocolate delicioso, fui atentado a passar meu dedo naquela cobertura doce.

Hipnotizado pelo sabor, fui reprovado diante de muitos pelo meu ato inocente, sendo obrigado a ter aquele bolo em minha frente praticamente uma semana inteira. Os adultos disseram que ninguém comeu o bolo por minha causa e que, devido a minha ganância, deveria comê-lo inteiro.

Essa é uma lembrança que guardo ainda claramente em minha mente, e lembro dela quando, em dias de festa, me trazem uma bandeja cheia de doces ou salgados e pedem para que eu pegue um. Peço gentilmente que coloquem em minha mão, pois não tenho mais coragem de invadir coisas dos outros.

É muito difícil e duro caminhar sozinho em caminhos desconhecidos, ainda mais quando somos seres inocentes, vindos há poucos anos a este mundo maravilhoso.

Pode não parecer, mas hoje agradeço muito aos que no inicio de tudo me ensinaram. Era um momento que, sem controle emocional, eu falava alto, gritava. Com duras palavras, fizeram com que eu fale com cortesia e respeito unidos ao sorriso e amor.

Agradeço às matriarcas da família, que me deram aquilo que tinham para que eu seja o que sou hoje –acima de tudo imperfeito, mas, como escrito nas primeiras letras desse testemunho, agindo da maneira mais coesa possível e procurando poder ofertar carinho, amor e um doce calor a cada um que surge em minha vida.

Seja qual momento for, aqueles que acreditam estar em uma situação perdida, como em um labirinto de cobranças e dor, jamais desistam, procurem refletir nas palavras duras que vem ao seu encontro.

Podem machucar naquela hora, mas a semente que foi plantada em nós é o fruto da boa conduta, da respeitabilidade e do bom senso.

Nada é por acaso, mas acima de tudo isso, o que deve existir é o amor. Mesmo o tapa que levamos por nossas travessuras é o meio de nos alertar que, se não formos repreendidos, ficamos cegos num mundo onde, para aprender, se exige uma prova extremamente difícil. Mas, mesmo assim, passaremos de ano –seja qual for tarefa por que somos responsáveis.