Gotas do Passado

Por paulohenrique

Apesar de hoje ser um dia qualquer onde quase nada de diferente acontece, a não ser apenas seguir a rotina de sempre, houve uma grande surpresa nessa manhã, antes de tomar o café da manhã.

Eu havia acabado de escovar os dentes e, enquanto o material de higiene bucal estava aqui, a espera de alguém que o recolhesse, fiquei aqui em meio ao tempo, refletindo uma pequena parte que me lembro de um sonho que tive na madrugada anterior.

Não foi algo que realmente fosse surpreendente mas, nesse mundo dos devaneios eu estava em uma cadeira de rodas motorizada, passeando nos corredores daqui do Instituto. Tudo tinha uma tonalidade de luzes antigas, puxando para um amarelo pálido. Eu me sentia tão confortável naquela cadeira que não haveria mais a necessidade de eu estar em uma cama. Agora, eu poderia sair para lugares distantes e viver a minha vida feliz. Porém, antes que eu caminhasse para essa liberdade, resolvi ir até o fundo do corredor, na esperança de encontrar os médicos que há anos cuidaram de mim. No quarto dos médicos, havia três. Dois foram anos em minhas lembranças aqueles que se responsabilizaram pela minha saúde, promovendo cuidados extremos para que hoje eu estivesse vivo. Olhando para um deles que me viu, apenas sorriu e deixou claramente uma sensação de mágoa que infelizmente eu plantei em seu coração.

Acordei desse sonho triste, sem ao menos poder ter de volta aquele imenso amor que antes havia ao meu redor. Todos estão maculados por minha causa e já escrevi um texto pedindo Perdão.

Mas, como eu havia dito logo acima, recebi uma surpresa, uma visita de uma pessoa que, quando eu era garoto, ele era um faxineiro. Graças a um médico que trabalhou aqui e que há anos se aposentou, fez desse ex-faxineiro um grande mecânico e eletricista, lhe proporcionando um subir de carreira grandioso, onde no lugar de vassoura, as ferramentas que mais lhe faziam sentido eram chaves, alicates e medidores de tensão.

Na minha adolescência, eu ficava na cadeira, entrava na sala de manutenção e via esse rapaz consertando os aparelhos de respiração mecânica que muitas vezes na época davam problemas. Eu ficava maravilhado e atento a todas as técnicas que ele faziam para arrumar as válvulas desses aparelhos, e me lembro claramente que o que dava mais problema era o diafragma. Ele tinha que cortar com uma tesoura uma placa de borracha, na forma do diafragma danificado, e com esta peça substituia a peça anterior. Era praticamente um trabalho artesanal.

Natalino era seu nome, ou Buxixo, como nós carinhosamente o chamávamos. Em poucos momentos de folga, Natalino entrava em nosso quarto, não era tímido, mas conversava pouco. O que muito nos divertia, que era também seu dom, era quando ele puxava um criado-mudo e na tampa e na lateral desse criado ele tocava um samba que nos fazia dançar. Era muito gostoso ter sua presença, pois nos dava grande alegria.

Hoje, Natalino, há anos aposentado, mesmo com sua idade um pouco avançada, expressa um sorriso jovem. É avô e continua sendo torcedor fiel do São Paulo Futebol Clube.
Uma das característica marcantes em sua época aqui foi sua gagueira, que hoje torna-se sutil.

Vindo aqui hoje, lembramos de momentos memoráveis, onde uma imensa saudade veio como um véu de seda. Ele perguntou do médico que lhe ajudou imensamente, e infelizmente respondi que não tinha mais novidade sobre ele, uma vez que não veio mais aqui nos visitar.

Perguntou de uma outra atendente, também aposentada, que sempre pedia que ele tocasse um sambinha para nos despertar do sono e, com muito amor, Natalino nos embalava com seu samba gostoso e maravilhoso.

Muito obrigado, Natalino, por hoje marcar meu dia, em momentos que jamais esquecerei, e que fazem você também responsável pela pessoa que sou hoje.