O Silêncio do Sorriso

Por paulohenrique

Passando alguns dias sem escrever, vivo em busca de memórias há muito tempo esquecidas, dentro de um baú já bem velho e gasto pelo tempo, mesmo estando eu com 48 anos de idade.

Infelizmente, fui alvejado por regras que, de uma certa maneira, me impedem de expor certos momentos marcantes em minha vida, com medo de que muitos ou todos jamais me entenderiam.
Posso não andar, mas sou o mesmo que todos que habitam este planeta Terra. Se todos lutam em busca de seu mundo, eu também tenho o direito de expor o meu.

Nessas próximas linhas que aqui escrevo, tento continuar meu caminho ao passado, buscando razão e sentido para poder expor ao mundo o que fui um dia, e o que serei no futuro.

Quando jovem –não tenho ideia exata de quando foi– vi pela primeira vez uma linda menina, apesar da pólio, que prejudicou completamente seu corpo. Por um acidente sem precedente, em algum momento, o aparelho respiratório se desconectou de sua traqueia, e o tempo que ela não conseguia respirar sozinha foi suficiente para deixar sequelas cerebrais.

Luciana tinha o cabelo encaracolado, castanhos escuros, olhos claros e, apesar da paralisia cerebral, ela tinha uma maneira muito especial de se comunicar com todos nós. Seu sorriso e sua gargalhada eram motivo para nos deixar todos felizes em termos sua companhia. Era muito difícil ofertar para a Lu, como a gente carinhosamente a chamava, um cuidado extremamente especial, para que em nenhum momento ela sentisse algum desconforto e, assim, em vez de sorrir, ela chorava. E quando o ambiente era preenchido pelo seu choro, as tias buscavam minuciosamente o motivo que a incomodava. Ela era sempre alimentada pelo nariz, por sonda.

Mesmo não tendo praticamente nenhum movimento, Luciana era bem sapeca, e muito inteligente. Apesar de suas extremas dificuldades, ela sempre nos ofertava o sabor doce de sua gargalhada.
Na época em que ficávamos todos em um grande quarto, sempre tínhamos a visita dos médicos que passavam bastante tempo com a gente. Uns até ficavam jogando ou assistindo algum programa de esporte ao nosso lado.

Dr. Fernando, ou tio, era para nós como um pai. Com sua presença que sempre nos ofertava alegria, seu semblante era como desses atores de cinema ou novela. Muitas vezes, brincávamos com a Luciana, perguntando se ela gostava de tal médico; quando o nome era de algum com quem ela não fosse com a cara, ela apenas expressava um gemido como afirmação. Mas, se perguntávamos se ela gostava do tio Fernando, ela dava sua gargalhada gostosa que nos fazia sorrir.

Luciana ficou com a gente durante muitos anos, até sua juventude. Ela sempre ganhava de Natal ou nas festividades brinquedos que a embalavam ao som de caixinhas de música. Muito raramente ela recebia a visita de sua família. Sua mãe era muito bonita e seu pai um homem simples e simpático, que às vezes se aproximava para também conversar com a gente. Lembro-me que eles eram de Santos (SP).

Um certo sábado, no final de 1991, algo estranho estava acontecendo. Passamos praticamente aquele sábado inteiro gritando para as tias porque o aparelho respiratório de Luciana se desconectava de sua traqueia. Não passava dez minutos que o aparelho soltava, e já berrávamos para as tias voltarem correndo para socorrer a Luciana.

Na noite desse mesmo sábado, resolvi dormir um pouco cedo, pois de madrugada passaria ao vivo a corrida de Fórmula 1 no Japão, e eu era um grande fã de Ayrton Senna, morto num acidente durante o GP de San Marino (Itália) em maio de 1994. Chegando quase as 2h da madrugada, como a TV não tinha controle remoto, eu a controlava com um taco de sinuca com uma espátula de alumínio colada na ponta com esparadrapo, com a qual eu conseguia puxar o botão da televisão para ligá-la.

Coloquei um volume bem baixinho, pois meus outros irmãos estavam dormindo. Instantes depois, veio uma auxiliar ao meu lado e diz que algo aconteceu com a Luciana, mas que não era para eu me preocupar, pois ela estava bem.

Daquele dia em diante, Luciana nunca mais sorriu para nós. Passávamos os dias ao som de seu choro, que era alto, e muitos procuravam meios de saber o que havia acontecido. Seu cérebro teve mais uma sequela devido à falta de oxigênio que ela passou naquele sábado de madrugada.

Essa minha lembrança é extremamente dolorida. Quando vem em minha mente, consigo me colocar no lugar de Luciana, quando seu aparelho escapava, e sem condições de chamar alguém, e no silêncio, tudo ao seu redor escurecia. Sinto um certo pesar quanto a este acontecimento.

A cada ano que passa, meses, dias, esse momento triste passa em minha frente como se fossem minutos. Em 1994, vi Luciana ao meu lado, seus olhos fechados. Chamei a tia, pois havia sangue escorrendo do nariz dela. Naquele momento, a médica pediu que a levassem para a UTI (Unidade de Terapia Intensiva). Foi uma despedida triste, em que somente a gargalhada da Lu soou como um doce adeus.