Dor e Castigo

Por paulohenrique

Perto de meus dez anos de idade, poucos momentos se passam em minha mente, a não ser, dolorosas lembranças que até hoje lembro nitidamente de senti-las.

Apesar dos meus limites, fui uma criança como qualquer outra e nada impedia as minhas peripécias. Minha infância, mesmo dentro de um hospital, me deu a oportunidade criativa de inventar maneiras de brincar. Sempre havia motivos e grande interesse para aqueles momentos maravilhosos quando uma criança quer explorar seu mundo.

Como qualquer outra criança, também tive meus momentos de rebeldia, que mais se pronunciava nas horas de comer. Em vez de prestar atenção a comida, eu preferia ficar manipulando minhas pernas que pareciam mortas. Por conta disso, eu vivia chupando meu dedão do pé. Com a maleabilidade que eu tinha quando era um pivete, tinha mania de colocar meus pés por trás da minha cabeça, parecido com os contorcionistas de circo.

Em um desses meus momentos de travessura, eu estava sendo alimentado por uma auxiliar que trabalhava aqui há muito tempo. Era um final de tarde e estava na hora do jantar. Deitado em meu berço, eu mais ficava atento as minhas pernas do que as colheradas de comida que essa auxiliar me oferecia. Concordo que naquele instante minha atitude já oferecia certa perda de paciência, mas não havia grande interesse na realidade naquele momento.

Algumas vezes, essa auxiliar me chamava atenção para que eu abrisse a boca e parasse com minhas estripulias. As brincadeiras que eu fazia com minhas pernas eram muito mais divertidas do que comer. Ela dava comida para mim e para um coleguinha ao mesmo tempo. Quando eu via que dava tempo, eu puxava a perna da calça do pijama novamente e ia em busca do meu dedão do pé. Era incrível poder sentir e ver meus membros inferiores, que não têm nenhum movimento.

Um certo momento, quando ela estava para colocar outra colher de comida na minha boca, eu uni meus dois pés como se unem as mãos quando se vai rezar. Eu estava atento ao tamanho de ambos, juntando os dedos e calcanhares. Meu interesse a esse detalhe era tão interessante que, quando a auxiliar, em vez de me chamar atenção para que eu abrisse a boca para comer, ela resolveu agir.

Sem que ela esperasse o que poderia acontecer, ela dá um tapa, bem acima dos dedos. Da forma que ela fez, algo aconteceu que ela jamais pudesse imaginar: o golpe fez com que minhas duas pernas quebrassem. Como em câmera lenta, um mundo de dor invade meu corpo, solto minhas pernas que caem mortas sobre o colchão, e lágrimas caem de meus olhos em um ato de desespero.

Em meio aos prantos, rapidamente fui levado para o pronto-socorro, e tentam me consolar pelo ato mal calculado. Sinto passarem algo gelado em minhas pernas, eu não saberia dizer o que seria, e, logo em seguida, as engessaram.

Os dias se passavam e ficava buscando meios para brincar. Lembro que, poucos dias depois daquele ocorrido, aquela auxiliar que estava me dando de comer veio até a mim. Com seus olhos cheio de lágrimas, ela pede perdão pelo que aconteceu. Mas em mim não havia mágoas. Eu a perdoei sem mesmo ter noção de qual motivo eu precisaria perdoá-la. Dias depois, eu soube que ela havia sido mandada embora por justa causa. Senti-me culpado pelo acontecimento, pois jamais imaginaria que algo assim pudesse acontecer.

Minha infância não foi diferente de ninguém, tive medo de escuro, de chuva e, acreditem, de barulho de helicóptero. Era uma época que eu e muitas outras crianças ficávamos no sexto andar e, por conta disso, quando algum helicóptero passava, aquele som de suas hélices me davam arrepios.

Haviam noites que eu fazia xixi na cama enquanto dormia. Embora não fosse um grande problema para algumas atendentes ou auxiliares, era com a tia Matilde, sim. Era um grande motivo para ela me colocasse de castigo. Todas as vezes em que eu molhava a cama dormindo quando ela trabalhava de noite, ela me colocava nu na cadeira de rodas e me levava para o fundo do corredor, que além de frio era escuro e dava medo. Não ficava aos berros quando isso acontecia, apenas as lágrimas faziam caminhos de meus olhos até caírem como gotas de meu queixo. Tia Matilde não era uma pessoa má, apenas uma mãe rígida que sempre queria o melhor para o seu filho.

Eu não tinha noção do que era certo ou errado quando era garoto. Apenas agia de maneira curiosa de tudo aquilo que passava em minha frente. A poliomielite é um problema neuromuscular e, por conta disso, toda a sensibilidade de meu corpo existe, e sinto com extrema percepção. Tanto que, se qualquer um fizer cócegas na sola dos meus pés, entro em histeria!

Quando criança, as auxiliares daqui me davam banho na banheira, que era adaptada para que eu e outros coleguinhas não afundássemos na água e, assim, proteger nossa traqueia. Foram momento maravilhosos quando eu tinha a chance de pegar o chuveiro, apertar a saída para que a água que estivesse saindo formasse um guincho forte e eu brincava de chuva, onde o teto ficava molhado e as gotas caíam frias em meu corpo.

Eu não ligava para algumas situações como ficar sem querer excitado quando as “tias” me davam banho. Não passava na minha mente que aquela seria uma situação complicada até que tia Matilde, vendo minha excitação, gritava lá do fundo do quarto para todos ouvirem: Por que está com o pinto duro moleque? Aquilo, além do susto, era uma intimidação da falta de pudor que eu jamais pudesse imaginar.

Na década de 1980, lembro de um domingo à tarde, quando recebíamos visitas de pessoas que não eram da nossa família, eu e mais seis jovens, para não dizer crianças, ficávamos em um quarto grande e o mais próximo de mim, era o Pedro.

Não me recordo o que fazia, talvez, lia um gibi, quando levei um susto com a tia Matilde. Ela chamou a atenção de uma moça que estava sentada ao lado da Tânia: Ôh, você aí! Fecha essas pernas e abaixa essa saia que o Pedro está ali olhando sua calcinha! Nesse instante, o Pedrinho fez semblante de bravo e disse não estar vendo nada do que ela havia sugerido. Mas, a forma como aconteceu, já deu para ver que a situação ficou chata para todo mundo naquele instante.

Tia Matilde gostava muito das músicas da Clara Nunes e, vira e mexe, quando ela vinha trabalhar, trazia sempre um disco para colocar na vitrola e passarmos o dia todo ouvindo “O Mar Serenou”.

Lembrando dessas gotas de passado, vem em minha mente um dia quando, antes dos meus dez anos de vida, eu ficava surpreso com o grande decote da tia Matilde. Não sei com certeza o que ocorreu, mas de repente ela me abraça em ato de afeto e meio que me vejo espremido naquele decote macio e quente.

Tia Matilde, como mãezona, comprava pão e mortadela para a gente quando não queríamos comer a comida do hospital. Ela era dura, mas tinha um grande coração. Tia Matilde, há muito tempo se aposentou e, segundo o que sei, ela faleceu devido a diabete.