Minha Primeira Paixão

Por paulohenrique

O que é a paixão senão um sentimento imenso que nos tira a razão? Quando estamos apaixonados, não queremos nada, além daquilo ou aquele que nos hipnotizou.

Ficamos cegos e nada mais faz sentido. Tudo em nossa volta se transforma em um nevoeiro, cinza e espesso, permitindo ver apenas o que tanto queremos e se faz presente.

Todos nos apaixonamos, seja por alguém ou por algo, de repente nossos corações perdem a harmonia de suas batidas. De repente somos fisgados por algo que nos conquistou.

Não somente os jovens, adultos ou velhos se apaixonam. As crianças também. E, assim, um dia caí na armadilha de um cupido mal-intencionado.

Quando criança, não me lembro minha idade, mas sim, aqui no hospital, amanhecera. Dava para sentir o calor da luz do sol, e o silêncio que pairava o ambiente do quarto onde sozinho eu ficava.

Em instantes, alguém, que estava para cuidar de mim, entra no quarto. Havia uma vitrola e para permitir um momento agradável, essa que veio ser minha cuidadora põe um disco para tocar.

Não tenho certeza, mas era um vinil de uma dessas novelas, na qual canções românticas, antigas e internacionais tocavam.

Não sei como foi, mas lembro até hoje do nome dessa que naquele dia, me ofertou grande afeto. Seu nome era Silvana, lembro que ela tinha cabelos compridos e loiros.

Ao mesmo tempo que a música tocava, sentia que algo não estava certo com ela. Parecia que, apesar de estar diante de mim, estava com seu coração em outro mundo.

Mesmo assim, eu me sentia bem e feliz. Em mim não havia o sentimento de um namoro ou algo maior, mas sim de uma mãe e seu filho.

Depois do banho e do café da manhã, ela sai do quarto para outras tarefas. Embalado com as músicas da vitrola, fico vislumbrando a paisagem da janela. Bem ao longe, em cima do prédio da Faculdade de Medicina, em frente ao Instituto onde fico, uma bandeira do Brasil dança conforme o vento que a embalava.

Poucos pássaros passavam rasante, e as nuvens junto ao azul do céu, completavam a beleza marcante daquele dia.

Muitos momentos quando garoto são como fotografias, nas quais o maior sentimento que se expressa é a solidão.

Embora um hospital para muitos tem a imagem de um lugar sombrio e triste, existe sim uma beleza onde poucos veem. Não sei se pelo tempo que vivo aqui, aprendo a ver esta beleza que muitas vezes deixavam uma sensação de completa felicidade. Sendo criança, há sempre a busca pelo fascínio, e quando garoto, onde pouca liberdade eu tive, nos corredores do instituto, onde a luz intensa do Sol entrava, eu invadia.

Quando se está em quarto escuro, com as janelas e suas persianas quase que completamente abaixadas, há apenas uma fresta onde a luz do dia invade. Aquele filete de luz entrando traz uma sensação gostosa, mas também o desejo imenso de estar no meio de muitos.

Às vezes, quando eu tinha a chance de estar em uma cadeira de rodas, passeando pelos corredores do instituto, ficava fascinado pois, a luz do Sol que entrava pelas janelas me hipnotizava de tal maneira que eu permanecia ali, parado, apenas observando o movimento das pessoas. Eu não tinha certeza do que eu realmente queria nesses momentos, pois a única certeza que eu tinha é que por mais que eu quisesse explorar o mundo, meu universo é apenas a realidade de minha vida.

Hoje seria radical eu dizer que não sonho mais em minhas poucas noites bem dormidas. Mas houve épocas de minha juventude em que meus sonhos eram praticamente os mesmos, andando nos corredores do Instituto de Ortopedia e Traumatologia. Os tetos altos iluminados artificialmente por luzes amarelas, revelavam um lar onde dentro de minha mente dormente, eu sentia tranquilidade.

Já tive pesadelos como nos filmes de hoje, onde a destruição do mundo estava por vir. Sonhos onde as grandes janelas do quarto, revelavam uma linda manhã de Sol, quando de repente, ao longe, espessas nuvens se formavam. Sem demora, tudo é coberto por um cinza escuro, e o vento com toda sua fúria, entra pelas frestas das janelas, fazendo com que os lustres apagados pela falta de energia, balançavam de maneira violenta.

Olhando para as janelas, apenas aquele cinza escuro em um céu infinito, que em certos instantes, relâmpagos surgiam com tremendo estrondo. Nesse mundo dos devaneios, eu apenas esperava que essa tempestade louca se dissipasse e logo viria a acalmaria. De repente, o vento se abranda, e em um céu escuro, surge a luz do Sol entre as nuvens que desaparecem e trás esperança para novos agradáveis dias.

A música parou de tocar, e assim, volto meu olhar para o quarto que somente eu estava presente. Não demorou muito para que Silvana voltasse e colocasse outro disco.

Parecia que aquele dia estava terminando, pois era fim de tarde. Poucas horas depois, irei dormir feliz, pois o carinho e o afeto que Silvana permitiu para mim, somente deixaria um doce conforto. Como a mãe cuida de seu filho, assim fecho meus olhos, tranqüilo e feliz.

Mas, infelizmente, nada dura para sempre. Onde um dia, tudo era de uma maneira especial, o outro pode ser bem diferente. Veio outra pessoa cuidar de mim no dia seguinte, e no lugar do afeto que Silvana trazia, não veio o desprezo, mas sim alguém que eu sequer poderia encontrar conforto, somente trouxe lágrimas aos meus olhos. Aos soluços pedi de volta a Silvana, que cuidou de mim no dia anterior. A resposta das minhas súplicas era que ela não viria mais.