Memórias Parte 4

Por paulohenrique

De tempos em tempos as lembranças batem à porta de minha alma, como se fossem um lindo lugar ao Sol. Você gosta de ver, sentir e respirar. São estes bons momentos que surgem de repente. Por um momento, quando se observam pequenos detalhes à nossa frente, vêm estas emoções, como se estivessem realmente presentes.

Hoje mesmo, quando estava sendo banhado, o nublado lá de fora me fez lembrar de situações que vivi, aqui mesmo no hospital, quando ainda era criança.

Tudo que escrevo e o que expresso não tem uma sequencia correta, justamente por muito distante estar no tempo em que as vivi.

Não sei que momento do dia, se à tarde ou pela manhã. Era como uma semana qualquer, eu estava olhando para a janela onde a visão era de um céu completamente cinza. Em meio a esta cor quase sem vida havia um ponto escuro que caminhava bem lentamente, não sabia o que era e nem muito menos poder pedir a alguém que me dissesse o que seria aquilo.

Eis que vem ao meu encontro uma auxiliar de enfermagem, juntamente com uma enfermeira japonesa. Essa auxiliar mostra algo para essa enfermeira, erguendo seu dedo indicador direito. Quando eu segui a direção, era a preocupação dela que mostrava vários grãos escuros como areia, no lençol do berço em que eu ficava. Segundo ela, era devido à chuva e que eu estava muito perto da janela, e que mesmo trocando os lençóis ou limpando essa sujeira voltaria.

Mas minha atenção era outra, naquele ponto escuro no céu cinza que quase não dava para ver mais por conta da parede onde terminava a janela, eu teria que me erguer para poder vê-lo melhor. Fazer isso sozinho eu não conseguia.

Quando a auxiliar foi trocar o lençol do berço ela me pegou, colocando cada mão um pouco abaixo de minhas axilas e me sentou no criado mudo ao lado. Naquele instante estava cercado pelo medo de não conseguir me sustentar e cair, mas ao mesmo tempo divertia por ver tudo pelo alto. Meu interesse não era mais o pontinho escuro que estava no céu, e sim olhar tudo ao meu redor, e ver o chão escuro.

Minhas poucas memórias são como sonhos que às vezes nos vêm em certas noites dormidas, mas a estas sim, eu as vivi.

Era uma manhã qualquer, havia outras crianças ao meu redor. E mesmo não sei o que eu estava fazendo, mas sim, as outras crianças estavam brincando.

Havia o tio Davi, ele era um rapaz que limpava o quarto e o corredor. Naquele dia e naquele momento, ele estava passando enceradeira no chão. Muitas crianças o cercavam por achar aquilo divertido.

De repente ele se aproxima da gente com aquela enceradeira, havia uma criança sentada em cima toda alegre com o vai e vem que o tio Davi fazia com aquela máquina barulhenta, que encerava o chão.

Instantes depois ele parava e outra criança tomava o lugar daquela que estava se divertindo. Assim, ele nos divertia, dando a cada um de nós a chance da alegria de passear em cima daquela máquina. Quando chegou a minha vez, ele sabia que eu queria, e entendeu que eu não conseguia me levantar e ficar de pé, sendo assim, ele me levanta, me põe sentado na enceradeira, fica me segurando e a liga. Como um susto, sinto a vibração do motor daquela geringonça estranha que, quando ele começa a caminhar com ela, se torna o momento mais divertido que uma criança poderia imaginar ter.

Durante o dia, tudo é mais vivo, mais tranqüilo, e mais explorador.

Em um certo início de noite, o céu já escurecendo, estou somente eu, em um quarto com poucos móveis e duas grandes janelas. Não havia muita atividade, apenas o observar e ver cada detalhe de um quarto iluminado por uma luz amarela que estava no teto alto. De repente, em uma das janelas, vendo o céu cada vez mais negro, enxergo algo brilhante. Não sei definir ao certo o que seria, mas hoje penso que foi a Lua. Naquele momento, por causa da minha fraca visão, eu avistava apenas algo muito brilhoso.

Algo me incomodava e eu não tinha certeza do que era. Ficava observando tudo ao meu redor, dentro do quarto, na esperança de que aquela luz sumisse. Quando fui vê-la novamente, ela estava um pouco mais baixa. Tentando ver se dentro da gaveta havia algo para que eu pudesse me divertir, não encontrei nada. Tentava a todo custo me distrair daquela brilho da janela mas só reparava que a cada instante, ela estava mais baixa.

Fiquei tão atento àquela luz, que, de repente, entrei em desespero e comecei a gritar pela tia. Quando entraram duas, perguntaram-me o que houve, disse que uma mão havia tocado em minhas costas. Elas não entendendo nada, perguntaram-me que mão é essa e eu disse apenas que era uma mão que estava embaixo da cama, elas olharam e não encontraram nada.

Tenho uma explicação bem clara para isso; em algum momento, naquele instante, hipnotizado pela Lua, coloco meu braço para trás, apenas como relaxar, eu estava tão atento àquela luz que, por uma contração muscular, minha própria mão mexeu involuntariamente, encostando em minhas costas, que me levou a um grande susto.

Como é interessante, criamos um mundo à parte, e, quando adultos, perdemos essa magia, esse dom, quem mesmo nos proporcionando medos, não deixa de ser maravilhoso.