Memórias, parte 2

Por paulohenrique

Como qualquer criança, também vivi entre a descoberta de tudo e o desconhecimento emocional. Não havia aquela responsabilidade de quando começamos a ter noção de nossa realidade, quando surgem questões como quem realmente somos. Enquanto não há estes pensamentos, apenas vivemos cada dia na curiosidade de tudo que há ao nosso redor.

Há cerca de cinco anos, em uma conversa por telefone com o meu pai, que ainda está vivo, questionei como vim parar aqui no Hospital das Clínicas. As poucas informações que ainda estão em sua memória foram para mim de extremo valor. Ele diz que vim para cá, com um pouco mais de um ano, ao ser diagnosticado com poliomielite, ou paralisa infantil. Fiquei alguns dias no hospital e depois retornei para casa.

Lembro de poucos acontecimentos que vivi nesse momento fora do hospital, mas que de certa maneira, são imagens como fotografias judiadas pelo tempo. Não há cor nessas lembranças e não há definição.

Lembro-me de estar sentado em uma cadeira de madeira não muito confortável, pois não conseguia me mexer direito. Não consigo definir se estava nublado ou um dia ensolarado nessa imagem que para mim tem tom sépia. Eu tentava ficar sentado quando de repente, quase caindo ao chão, vejo em minha frente um grande caminhão. Essa lembrança morre nesse momento, finalizando assim, a revelação de uma foto que um dia vivi.

Um certo dia, quando criança e ainda fora do hospital, lembro-me de estar sentando em uma cadeira e comendo pão com manteiga. Estava no quintal de uma casa a qual hoje tenho quase que certeza ser de minha avó. Havia uma galinha ou galo ciscando próximo de mim, me dando certo medo. Sem explicação, a ave bate suas pequenas asas que, ao encostarem em minhas pernas sem vida provocam um susto, fazendo com que eu deixe cair o pão com manteiga, logo abocanhado pelo cachorro que estava ao meu lado.

Segundo meu pai, seis meses depois dessa época na casa de minha avó, retornei para o hospital.

Estas são as únicas lembranças que tenho antes de ficar definitivamente aqui. São imagens como folhas que caem ao chão e são levadas pela chuva, que uma vez existiram e agora tomam rumo ao caminho sem destino.

Entre piscar e abrir os olhos, vejo pessoas ao meu redor. Estes desconhecidos naquele instante, agem de maneira a me socorrer. Já não tenho forças para andar, para correr, ou brincar. O tempo passa e me vejo enrolado em uma coberta, abro os olhos, o quarto iluminado por uma luz amarela, vejo a noite lá fora. Haviam outras crianças comigo e um silêncio que chama o sono. Por um instante, abro o berreiro quando algo passa em minha frente. Era colorido, vermelho, branco, azul e amarelo. Somente muito tempo depois, caio na real que alguém tinha me mostrado um palhaço de brinquedo. Não sei se esta memória vem de quando eu era bebê, mas existem estas poucas imagens em minha mente.

Lembro também de uma certa noite em um quarto no hospital onde vivo. Abri meus olhos e estava escuro. Em minha frente, uma pequena TV em preto e branco. Ao olhar ao redor percebi um médico com total atenção naquilo que a TV estava transmitindo, o que me fez ficar interessado nas imagens que mostravam um homem todo trajado com uma roupa estranha, descendo de uma cápsula espacial. Era Neil Armstrong pisando na Lua.

Neil Armstrong pisando na Lua
Neil Armstrong pisando na Lua – 20 de julho de 1969

Fiquei vendo aquelas imagens até o sono voltar a fechar meus olhos. Não sei se no mesmo dia ou em outro, o mesmo momento que vivi se repetia, mas o que estava passando na TV dessa vez era um filme. As cenas desse filme me deixaram impressionado. Era um filme antigo e não tenho certeza do que se tratava mas, lembro de uma cena de um homem que tentava sem sucesso tirar da cabeça um jarro de ferro. Em outro momento, parece que estavam preparando uma guilhotina, que decepa a cabeça de um rapaz. Nesse momento sua apaixonada se aproxima e deixa a cabeça dele cair em seu colo, cena escondida por sua saia.

Estas memórias bem distantes foram o início de mim, de minha vida nesse mundo. Apesar de toda a dificuldade que encontro, acredito que sempre há uma beleza presente, de podermos aprender e conquistar nossos objetivos.