Memórias, primeira parte

Por paulohenrique

Bem, nasci aqui mesmo em São Paulo, não tenho muitas memórias de quando criança, apenas poucos flashes que por algum motivo estão vivos em minha mente.

A real informação que tenho é que, vim para o Hospital das Clínicas de São Paulo com um ano e meio de idade. Lembro de estar em um veículo no colo de alguém que penso ser de minha avó, que já faleceu. Tenho poucas lembranças dos primeiros médicos que me atenderam no hospital e praticamente todos se aposentaram ou faleceram.

Tenho um episódio bem mais detalhado que passei com minha avó. Meu pai, que ainda está vivo, conta que quando vim para o hospital fui diagnosticado com sequelas da poliomielite, e poucos dias depois voltei para casa. Lembro claramente de uma certa noite, penso que eu estava em um berço na sala, olhando para a janela que era iluminada pela luz do poste lá fora. Vi claramente um vulto parado, a silhueta de alguém. Nesse momento, voltei meus olhos para minha avó que me disse “não olhe para lá não”. Foram claras para mim aquelas palavras, e não fui mais em busca daquela visão. Creio que o que vi poderia ser o vulto de minha mãe, que faleceu dois dias depois de meu nascimento, no hospital de Santo Amaro.

Pouco tempo depois, tive nova queda de saúde, quando retornei para o Hospital das Clínicas, onde permaneço até hoje.

Como eu vim para cá criança, não havia a real consciência do que era andar e estar nos lugares. Aqui mesmo no hospital, acho que com quatro anos, lembro de estar em um quarto com outras várias crianças, e estávamos nos divertindo com um tio que passava enceradeira no corredor. Essas crianças gostavam de sentar na máquina de encerar que ele ficava passando para lá e para cá. Cada criança ficava esperando sua vez de subir nessa máquina e, quando foi minha vez, como eu não conseguia andar, ele me pegou pela cintura, e me colocou naquela enceradeira barulhenta. Instantes depois ele começou a me levar para lá e para cá, e foi um momento muito divertido.

Quando você vai crescendo, tudo começa a fazer sentido. Os momentos de solidão no quarto, que mais se acentuavam à noite, quando você desejaria que ao menos alguém estivesse ao seu lado. Os momentos que, com uma cadeira de rodas, você descobre que pode ir a lugares e, sem saber se pode ou não, entra em quartos por curiosidade. Você acaba por conhecer outros que também não podem sair e inicia seu ciclo de amizade, seus companheiros.

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Até chegar o tempo em que você descobre as emoções, os desejos e amor. Bem, no meu caso, posso dizer que foi uma experiência amarga mas doce ao mesmo tempo. Amarga pelo fato de você saber bem pouco como agir ou o que fazer quando se apaixona pela primeira vez. Você tem a sensação de que todos ao seu redor, devido seus traumas, são inimigos, e não querem permitir que você sofra. Mas doce, por saber que você está vivo, que é além do que se vê e que, infelizmente, devido seu limite, tem poucas opções de ir em frente, mas pode caminhar de qualquer maneira, pois não há limite que impeça a mente de agir.

Hoje vivo o intenso, entre o medo e a coragem, nas incertezas. Mesmo assim, quero enfrentar desafios, por mais negativa que seja a resposta, há em mim o desejo de correr os riscos e lutar pela conquista de um sim.

Os anos foram passando e começou minha curiosidade em aparelhos eletrônicos. Eu não gostava muito de brinquedos que não tinham, vamos assim dizer, vida. Eu era apaixonado por brinquedos em que você colocava pilhas e eles faziam algo.

Houve o momento de extrema curiosidade, quando sempre abria rádios de pilha para que eu pudesse explorá-los por dentro. Cada aparelho que eu conseguia tirar os parafusos era detalhadamente analisado, como se eu estivesse a todo custo querendo descobrir seus segredos. Apenas por observar, comecei a ter uma pequena ideia de como as coisas funcionavam. Mesmo eu não entendendo praticamente nada de eletrônica, algumas pessoas traziam seus rádios quebrados e por intuição conseguia fazer com que alguns voltassem a funcionar.

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Antigamente havia um aparelho que era usado para aspirar o catarro de nossas traqueias. Essa máquina esquisita, que deve estar em algum museu de medicina, salvou minha vida muitas vezes. Mas também foi responsável por quase me fazer partir quando, por falha, bloqueou por completo minhas vias respiratórias. Não conseguia gritar ou gesticular para que alguém pudesse me socorrer mas um médico que estava passando viu que eu estava ficando cianótico. Lembro que minha visão já estava ficando escura quando, com uma ação dele, o ar retornou me permitindo chorar e buscar mais vida.

Esse aparelho –lembro até do nome dele, Tussomat– já era considerado velho logo quando entrei no hospital. Ele vivia quebrando, ainda mais nos finais de semana e feriados, quando não havia tantos técnicos disponíveis. Quando ele quebrava havia um reserva mas, conforme os anos foram passando, só restou um, que funcionava com as peças do outro.

A partir daí, quando o aparelho dava defeito –e vendo que não somente eu precisava dele para ser aspirado– me atrevia a pedir que o encostassem ao meu lado para que eu pudesse ver o que poderia ser feito.

Eram tantos fios unidos com fita isolante, parafusos, ferrugem que eu não tinha ideia de onde começar, mas eu precisava fazer alguma coisa. Por mais de uma hora eu prestava extrema atenção em cada parte, como o mecanismo de liga e desliga e o ativador de vácuo, e logo não me restava outra alternativa a não ser correr os riscos. Percebo alguns fios soltos mas, sem ter fita isolante, uno eles com esparadrapo e peço que as tias liguem o aparelho. Com medo de um curto circuito, praticamente todos fecham os olhos e, quando ligam na tomada… a surpresa: aquela máquina estranha volta a funcionar! Um imenso alivio para todos nós, que dependíamos daquele aparelho para tirar o catarro que tanto incomoda.

Hoje não há mais este Tussomat. Há alguns anos adotamos a aspiração que chamamos de invasiva, que é a inserção de uma sonda nas nossas traqueias.

Durante muito tempo a televisão foi minha companheira. Entre desenhos e comédias, meus dias eram mais tranquilos com a presença de uma TV, mesmo que eu não prestasse atenção nela.

Eu vivia pedindo para me levarem a um quarto que tivesse uma TV para eu assistir, pois quando criança eu não tinha uma. Sem poder entrar no quarto de outras pacientes, ficava assistindo a TV deles pelo corredor. Não passava o que eu queria, e muitos menos eu tinha o direito de pedir que procurassem desenhos para eu assistir. Na época, muitos assistiam a novela “Escrava Isaura”, que coisa chata! Mas, diante de ficar sozinho, era bem melhor ver a Lucélia Santos em uma tela em preto e branco e ter aquele momento de tranquilidade.

Alguns anos mais tarde ganhei uma TV de um casal de primos que moram em Goiás. A partir de então tive a felicidade de assistir séries encantadoras e outras que me davam muito medo. Assistia “Ultraman”, “Ultraseven”, “Robô Gigante”, “Os Vingadores do Espaço” e também os clássicos de Hanna-Barbera.

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Minhas brincadeiras tinham que ser criadas e inventadas juntamente com outros colegas de quarto –cinco deles já partiram para o reino de Deus. Fingíamos que o criado mudo entre nós era um estádio de futebol e jogávamos uma bolinha de papel. Em outras vezes o móvel era uma pista de corrida e brincávamos com carrinhos amarrados em uma linha para que não caíssem no chão, já que não tinha quem pudesse pegá-los para que a brincadeira voltasse.

Quando não havia estas brincadeiras, nosso quarto ficava com o som das TVs que ficavam ligadas mesmo quando passavam programas sem interesse e eu ficava horas lendo gibis.

Muitos anos se passaram e chegou a era dos videogames. Um médico uma vez trouxe para eu ver o primeiro console de jogo eletrônico que conheci, o Atari, que me encantou imensamente. Eu podia manipular personagens na tela de uma televisão para impedir que a Terra fosse invadidas por seres que vieram do espaço!

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Não me lembro ao certo quanto tempo depois tive a ideia de fazer uma vaquinha para comprar um videogame. Pedia para cada tio e tia que trabalhavam aqui na época uma pequena quantia para que meu sonho de ter um videogame fosse realizado. No Natal daquele ano, quando voltei de uma festa, em cima de minha cama havia uma caixa embrulhada e, quando a abri, era o console Telejogo!

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Esse foi o início de minha paixão por games. Alguns natais depois ganhei um Atari de uma prima minha que era como se fosse minha mãe. Depois, conseguia novos consoles com grandes amigos, os quais eu sentia a liberdade de pedir outro videogame, ou quando infelizmente vendia o modelo antigo para comprar o novo.

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Meu conhecimento com a informática começou em 1992, depois que decidi escrever uma carta para o presidente da Gradiente da época e pedir a doação do computador pessoal MSX. No mesmo ano, ganhei o computador!

Mais tarde, acredito que em 1995, ganhei meu primeiro PC e comecei a me envolver definitivamente com computadores. Eu sempre provocava uma pane em cada um que passava em minhas mãos, porque não conhecia sua estrutura física e digital, e quase sempre eles tinham que ser trocados.

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Mas nada foi em vão, e cada máquina trocada era uma nova oportunidade de aprendizado. Hoje já montei dois bons computadores, robustos, mas muito caros.

A partir daí o mundo girava em torno do que a tecnologia poderia me oferecer. A internet aqui no hospital só começou em meados de 1995, onde meus primeiros downloads enchiam disquetes de músicas, geralmente de sintetizadores. Quando surgiu o chat foi uma grande febre. Próximo dessa época escrevi uma carta para a Telefônica pedindo uma conexão a internet para que eu pudesse explorar o mundo e fui muito bem atendido.

Hoje, a internet é parte de minha vida e faz com que eu me sinta conectado ao mundo. Apesar de não ter minha completa liberdade física, ela me permite estar em qualquer lugar e com qualquer amigo, até os de fora do Brasil.

Tenho muitos aparelhos eletrônicos além da minha pequena coleção de games e consoles. Mesmo com o computador conectado à internet, tenho meu muito amado celular que também permanece on-line, assim como a maioria dos videogames que tenho.

Os sites que mais gosto de acessar são o UOL, onde tenho o meu blog Vários Prismas, Infinitos Lados, um portal para os apaixonados em videogames chamado OuterSpace, o YouTube –que hoje em dia vem cada vez mais  substituindo a TV–, uma rádio que amo de paixão, a Antena 1, e o Facebook.

Na internet, busco também tutoriais, com técnicas de outros profissionais, que posso aplicar em meus trabalhos nas áreas de computação gráfica, animação e efeitos especiais. Faço também pesquisas de muitos assuntos que acho interessantes, de tecnologia espacial a cinema, além de fatos históricos que marcaram o mundo.

Tenho muitos sonhos. Um deles, que coloco no topo de minha vida, é poder conhecer a Times Square em Nova York, um sonho muito distante mas não acredito na impossibilidade em nossas vidas. Sonho também em um dia fazer parte da Sétima Arte. Sonho conhecer muitos atores, diretores e atrizes de cinema.

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Os sonhos vêm a partir do momento em que, tudo que passou em sua vida, teve algum sentido para que jamais seja esquecido e, quando de repente encontramos coisas ou pessoas que tocam em nossos corações, desejamos ao máximo ter a presença daquela estrela que surgiu em nosso céu. Não faz sentido? É assim mesmo, não importa, o que importa é que somos extremamente felizes quando temos a chance de realizar nossos sonhos.

Dentre os sonhos que realizei, momentos que hoje estão eternizados em minha mente, o primeiro foi em 1992: ter a chance de apertar a mão de Ayrton Senna que, por uma carta que escrevi, veio nos visitar. Listo mais alguns:

– Em 2000 ou 2001, assistir no Credicard Hall o show de um grupo Irlandês chamado Lord of The Dance, que foi extremamente lindo;

– Conhecer o diretor de cinema, Carlos Saldanha que hoje é um grande amigo;

– Assistir em 2013 a uma corrida de Stock Car em Interlagos;

– Conhecer as musas do vôlei brasileiro Thaisa, Dani Lins e Jaqueline;

– Ir a um estádio de futebol pela primeira vez, de meu time querido, o São Paulo Futebol Clube;

– Visitar a feira Brasil Game Show nas três últimas edições.

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Minha filosofia de vida é que não há o certo e o errado; Existem sim caminhos que a vida nos dá, é de nosso livre arbítrio escolher um sabendo que, para cada caminho, grandes e extremas responsabilidades.

Devemos sim nos arriscar e quebrar a cara. Não é porque falhamos que devemos nos considerar fracassados, muito pelo contrário, só de nos atrevermos a arriscar já é um ponto de vitória. Sabendo de suas perdas, basta assumir cada uma e aprender para que nas próximas oportunidades, que virão, tenhamos menor chance de perder e maior chance daquilo que já temos como concreta, a nossa vitória. Sou ecumênico, eu respeito todas as formas de crer, todas as religiões e seitas. Jamais as coloco em dúvida e tenho a máxima certeza de que Deus é o caminho, a verdade e a vida.

Todos os dias, assim que acordo, penso logo no que fazer. Agradeço mais uma oportunidade de estar vivo, e pela Eliana também estar bem. Acho que a vida, tem sim, seus altos e baixos. Sempre quando estamos no alto é que estamos fortes mas, acredito que somos bem mais fortes quando estamos por baixo, onde temos que usar de todas as nossas forças para enfrentar cada dia.

Eu tenho uma mente muito problemática, eu penso demais, e isso acaba muito me atrapalhando. Apesar disso, sou um cara legal, sou respeitoso, sei respeitar as pessoas e jamais faço nada sem antes questionar, pois sou cauteloso em respeito àquele que está ao meu redor.

Sobre a felicidade é sempre quando faço algo que tanto quero e que acaba dando certo, ou, ver alguém que faz tempo que não a vejo. A felicidade é bem complexa mas ela existe, e devemos sempre procurar meios de alcançá-la, sabendo sempre que ela dura pouco.

Penso muito que, daqui cinco anos, tenho a sensação de ter alcançado grandes vitórias, sejam profissionalmente e também em investimento na realização de meus sonhos. Peço muito a Deus que me permita ter uma vida “longa e próspera”, como Spock sempre dizia, que é o que todos merecemos.

Agradeço muito ao Senac, que me deu e ainda é quem me apoia e investe em minha carreira profissional, me ofertando cursos de roteiro e redação, Autodesk Maya e animação 3D, Adobe Photoshop, Adobe Premiere Pro, Adobe After Effects e Final Cut X.

A respeito de cinema e livros que li, gosto de fantasia e ficção, mas, como amo cinema, abro sempre oportunidade para assistir todos os gêneros. Gosto muito dos livros “O Senhor dos Anéis”, “Silmarillion”, “O Hobbit” e as obras da Editora Darkside.