Hoje

Por paulohenrique

Hoje acordei cedo, umas 07h15, esfreguei meus olhos para tentar ver o mundo ao meu redor. Foi aí que consegui ver a hora informada, e virei para o lado direito, em que sempre fico e onde tenho condições de fazer tudo que preciso.

Ouço apenas o som do ventilador que sempre peço para ligar (até mesmo no frio). Naquele instante, eu estava sendo refrescado pelo vento artificial que, em poucos minutos, torna-se frio. Estava suado, meu avental hospitalar molhado, gelado até, com o sopro do vento. Bom seria se esse ventilador tivesse controle remoto, pois seria de grande ajuda quando esqueço de pedir para programá-lo para que se desligue automaticamente.

Em minha frente, uma tela escura, desligada. A porta de minha liberdade estava sem vida. Peguei meu celular e liguei, pois sempre durmo com ele desligado, embaixo do travesseiro, caso eu necessite de algo durante a madrugada.

Ao ligá-lo e permitir que ele tenha acesso à internet wi-fi, logo vem uma mensagem no WhatsApp. Quem me mandou foi minha irmãzinha de quarto, Eliana Zagui. A mensagem era um vídeo, que um tempo atrás havia assistido no Facebook. Junto com o vídeo, veio sua doce mensagem: “Ofereço este vídeo a você que é muito importante em minha vida e que sabe ter a sensibilidade das pequenas coisas de grande valor em minha vida”.

O vídeo se passa em um quarto de hospital, onde há dois leitos, ocupados por dois senhores. Um era cego, com venda nos olhos, e questionava o seu colega de quarto sobre o que se passava em um parque próximo ao hospital em que estavam. O colega, por sua vez, dizia haver um rapaz apaixonado, que trazia um grande buquê de flores para sua amada. O enfermo cego, já na torcida pela vitória do rapaz, dizia que a moça não estava a fim de flores e sim de um anel de noivado.

No dia seguinte, aquele que tinha a visão do parque olha pela janela e narra ao seu colega cego que o rapaz voltara ao parque, e novamente com um buquê de flores. Eis que a moça se aproxima, o rapaz se ajoelha e a entrega algo. O cego logo diz: “Um anel?!”.

Instantes depois, entra uma enfermeira que pergunta ao enfermo que se encontra perto da janela se ele está preparado. Ela vem com uma cadeira, e se aproxima para que ele sente. Antes de sair, ele diz que ninguém está preparado para certas coisas mas que temos que ir em frente. Ele olha para seu amigo cego, e este lhe diz boa sorte.

Não se sabe ao certo quanto tempo se passou. O cego, em sua solidão, sente a presença de uma enfermeira que entra para arrumar o leito desocupado. Não ouvindo ou sentindo a presença de seu amigo, ele questiona a enfermeira se seria apenas a troca de lençóis. Ela, com muito pesar, lhe diz que infelizmente aquele enfermo não resistiu. Na profunda dor de se sentir só, o cego pede gentilmente que a enfermeira lhe diga como está o parque lá fora, pela janela do quarto. Quando ela afasta a persiana, revela surpreendentemente que não há nada lá fora, apenas um muro de tijolos.

Uma das maneiras de amar alguém é justamente lhe ofertando momentos inesquecíveis, que faça essa pessoa esquecer um pouco o labirinto em que está perdida. Eu mesmo, durante este momento, me encontro perdido num labirinto criado pelas emoções, medos e indecisões. Vivo o momento de angústia na busca de algo que não tenho ideia do que seja. Isso sim me faz sangrar os pés da alma. Jamais me permito desistir, mesmo que esses pensamentos venham apenas para atrapalhar, pois tenho a máxima certeza que cada um de nós somos muito mais do que imaginamos ser, e tenho que lutar ao extremo para manter a força, a fé de que irei sim vencer.

Olhei para o relógio, e percebi que algo estava errado, eram mais de 8h e ninguém tinha entrado no quarto. Eram quase 9h45 quando entrou uma auxiliar, que logo veio para cuidar de mim, permitindo que Eliana dormisse um pouco mais. Ao finalizar os cuidados, ela revela que houve um óbito. Por isso elas demoraram a entrar, já que tinham que preparar o corpo, que seria levado ao IML (Instituto Médico Legal).

Foi aí que percebi a grande coincidência do vídeo que minha amada irmãzinha de quarto havia me mandado.