Desprezo

Por paulohenrique

O que muitos ou poucos sabem do que seja desprezo? O ato de desprezar algo ou alguém não é apenas desviar o olhar ao que lhes traz desconforto.

O ato de repulsar tudo e todos é, para mim, algo que nos cega, não nos permitindo ver que, ao agir com desprezo, estamos fazendo mal, em primeiro lugar, a nós mesmos. Desprezamos os nossos valores, nossa honra, nosso respeito e o amor próprio.

Eu mesmo, muitas vezes, já cometi esse deslize, mas sempre me permito refletir sobre quem eu deixei de lado. Muitas vezes, em meio a medos e anseios, me escondo diante de uma tela de computador, de forma a não desviar o meu olhar, na tentativa de não permitir que certas pessoas se aproximem de mim. Mas é sim um grande e impensável erro.

Impedir de as pessoas se aproximarem é permitir que uma imensa cratera se abra em nossas vidas, deixando uma marca vazia sem necessidade de existir. Permitimos perder algo cujo valor jamais imaginamos. Algo que, de repente, pode transformar muito nossas vidas.

Pode ser que, em certos casos de desprezo, a pessoa se coloque numa posição tão acima de qualquer um, que teme se “contaminar” com o que ela considera inferior, que mal sabe o inestimável valor que há no indivíduo para quem ela virou as costas.

Entre os anos de 1994 e 2006, conquistei algo em minha vida que, naquele momento, imaginava ser totalmente incapaz, mas consegui. Talvez nesse momento, eu mesmo esteja me desprezando, pois não tem sido nada fácil lutar e conquistar. Parece que eu estou abraçado a algo que me impede de enxergar tudo claro.

Mas nesses poucos anos, decidido a enfrentar os grandes obstáculos, conquistei um pouco de liberdade. Por muito tempo, vivi apenas na cama, engordando e vivendo sem sentido. Não foi uma luta fácil, pois tendo consciência de minha condição física, sabia que teria que me armar de forças sobrenaturais para que nada me fizesse mudar de ideia, para que nada me desse medo e me fizesse desistir de tudo.

O tempo foi passando, e minha força de vontade era maior que tudo. Quando chegou 1994, voltei para a cadeira de rodas. Na primeira vez em que sentei depois de muitos anos, me senti tonto. Comecei a ver o mundo horizontalmente, e foi aí o início de algo novo. Eu almejava tudo de uma vez, como um pássaro que, solto após ficar preso numa gaiola, nem sequer tem ideia do caminho a voar e, sem destino, acaba por encontrar obstáculos despercebidos.
Em 1996, conheci pela primeira vez o cinema! Foi tudo que eu tanto queria, poder estar diante de uma grande tela no antigo Cine Astor, onde assisti meu primeiro filme. Só o título já dá o sentido de que eu estava vivendo nos anos futuros: “Independence Day”.

Como alguns devem saber, sou um apaixonado pela sétima arte. Claro, não me coloco como um crítico de cinema, pois esses excelentes profissionais têm grandes oportunidades de estar diante de atores e diretores, e conquistar informações maravilhosas sobre o que se tem criado para as grandes telas de cinema. Mas busco expor o que vejo e sinto dos filmes que assisto, e cada cena que detalho é, para mim, muito mais que um simples abajur iluminando um quarto escuro.

Uma vez, nesse momento livre que tive, estava na companhia de um amigo, pois eu nunca saía sozinho, com medo de minha cadeira motorizada dar alguma pane ou mesmo cair. Era um sábado ensolarado, de tarde, e eu caminhava caminhando na selva de pedra da avenida Paulista. Cada experiência vivida, única e marcante, estão hoje em minhas lembranças.

A primeira vez que vi na vida um mendigo, tomei um susto. Foi quando eu fazia um curso de programação na Faculdade de Medicina, em frente ao prédio do Instituto de Ortopedia e Traumatologia. Nessa época, os alunos vinham logo cedo me buscar para me levar até a sala de aula. Quando terminava, eles me traziam de volta. Em um desses retornos, logo que saí do prédio, eis que vejo um corpo deitado na calçada, com um jornal no rosto. Parei minha cadeira e perguntei, meio tenso, ao amigo que estava comigo o que seria aquilo.

Rindo, ele me responde que seriam pombas, Realmente, junto ao corpo, haviam poucas pombas caminhando ao redor. Insisti que não, e apontei para quem estava deitado. Foi quando ele, rindo mais ainda, disse que era apenas um morador de rua.

Essa cena está em minha mente até hoje, mas, voltando ao sábado que descrevo acima, estava tranquilo caminhando quando, de repente, observo um senhor que dormia no chão de uma calçada. Ao seu lado, havia uma pequena garrafa de água vazia e uma sacolinha de plástico aparentemente vazia.

Olhei para o meu amigo e tive uma ideia. Pedi que me levasse até o Tenda Paulista, que estava bem perto de nós. Dentro do recinto, pedi que preparasse um marmitex bem farto. Ao terminar, paguei e voltei para a rua, indo na direção daquele senhor que estava dormindo.

Ao encontrá-lo na mesma condição, pedi ao meu amigo que desse a comida para ele. Meu amigo se aproximou dele e tocou bem de leve em seu ombro para que ele acordasse. Ao acordar, meu amigo apontou o dedo em minha direção e disse: “Ele está dando isso para o senhor”.

De repente, este senhor olhou para mim e, num pulo, ficou em pé e saiu correndo! Nos entreolhamos sem entender o que havia acontecido, pedi que ele deixasse o marmitex ali mesmo, já que o senhor deixou alguma coisa para trás e pode retornar. Ou então, que fique para outro alguém.

Não tenho certeza do que realmente aconteceu. Posso dizer que o senhor não conteve a vergonha de estar onde estava e ver que alguém lhe ofertava um conforto. Sinceramente, não sei ao certo que atitude foi aquela, mas não foi desprezo e sim medo. Ao mesmo tempo em que sentimos medo de nos entregar a alguém, devemos sempre lembrar que há alguém que tem o mesmo medo de se aproximar de nós. Antes de agir, apenas olhe, preste atenção, pois aí você realmente enxergará um lindo brilho, aquele que está em nossa frente.